domingo, 14 de dezembro de 2008

Antecipando

Brother Ricardo Zanirato, parceiro dos tempos de Terra (e de ótimos "happy hour"), postou na quarta-feira em seu novo blog, o Olocobitcho's (devidamente linkado à direita), que o Corinthians fechou patrocínio com o Bradesco para 2009, e que o Palmeiras vai estampar a marca da Samsung.

Bom, tá aqui a notícia. Esperemos para ver se vai se confirmar. Se rolar, ele cantou a bola na quarta-feira, e me mandou na hora em que postou. Registrado.

E boa sorte com o blog, que já tá bombando! Diferentemente de alguns de seus amigos, que só postam de vez em nunca e sem periodicidade alguma, o Ricardo tá mandando bem no blog.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sobre a covardia, parte 2

Nilton César de Jesus, 26, faleceu na quinta-feira, vítima da covardia cometida pelo sargento da Polícia Militar do Distrito Federal José Luiz Carvalho Barreto, que deu uma coronhada no rapaz, sem motivo (já que não houve resistência alguma), a arma disparou e acertou sua cabeça.

Já falei tudo o que eu acho no meu primeiro post sobre o assunto, há alguns dias. Hoje, pretendo repercutir algumas coisas.

Basicamente, o que disse o promotor da Justiça Paulo Gomes, do Distrito Federal, que afirmou que o disparo foi "acidental", "como mostram as imagens".

"A principio, pelas imagens que já nos chegaram que foi até difundido pela mídia, ficou demonstrado que ele não quis causar um homicídio doloso. Houve um acidente no momento em que ele efetuou uma coronhada desnecessária naquele cidadão", disse Gomes ao "DFTV", da Globo.

Discordo, como já falei. O sargento, como membro da PM, sabe muito bem como uma arma pode disparar se você usá-la para dar uma coronhada. Uma arma não é um cassetete. Deu a coronhada, a arma disparou, matou o cidadão. A única diferença para o que escrevi antes é que agora ele precisa ser indiciado por homicídio doloso, e não mais por tentativa de homicídio.

E, na quinta-feira, o médico Carlos Silvério, chefe do Departamento de Neurocirurgia do hospital onde Nilton esteve internado, indicou que a própria pancada causada pela coronhada pode ter sido a causa da morte. E aí, como fica o discurso do promotor? Ou da PM? "Acidente"?

Prefiro homicídio doloso consumado por covardia. Que tal?

Esperemos o laudo do IML (que vai apontar se foi o tiro ou a pancada que matou a vítima) e uma condenação justa ao assassino, o que é raro acontecer no Brasil.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sobre a covardia


Essa imagem é emblemática demais para passar despercebida por este blog. Chocante. De causar indignação. Ainda mais quando lemos duas notícias de hoje sobre o assunto:



Também hoje, nosso querido José Roberto Arruda, do PFL (ou DEM, se preferir - é apenas uma sigla insignificante), governador do DF, "lamentou profundamente" o caso e ressaltou que ele "não pode mudar o fato de Brasília ser receptora de grandes eventos". Ainda citou SP e Rio como locais onde problemas semelhantes aconteceram.

Afinal, é disso que se trata. Copa-2014. O torcedor que busque sua sobrevivência, porque a culpa não é do governo. O negócio é ter um estádio para 20.000 pessoas em uma cidade-satélite com apenas um hospital, sem equipamentos adequados (segundo relatos de quem esteve lá) para receber Nilton César de Jesus, de 26 anos - este é o nome de mais uma vítima da violência no país.

O "acidente", que envolveu um sargento que tinha "ficha exemplar" na PM, conforme noticiaram alguns periódicos, não teve nada de acidente. Foi, sim, uma tentativa de homicídio. Uma covardia sem tamanha. Acho que o que vimos foi sim um infeliz "déja-vu" dos mais tristes e sangrentos anos da história brasileira. Talvez o sargento José Luiz Carvalho Barreto quisesse comemorar os 40 anos do AI-5, que serão completados no próximo dia 13.

Não quero causar sensacionalismo com o caso, para isso bastam as imagens, mas o que me chocou durante toda a história foi que o torcedor tomou um tiro na cabeça sem NENHUMA justificativa. Nas imagens flagradas pela TV Record, Nilton apenas corre durante a confusão, corre, e depois aparenta fugir do sargento, que lhe aponta a arma. Ele pára, ergue os braços, e sofre uma coronhada - agressão recorrente em filmes sobre mafiosos.

E aí que está o x da questão. Nilton, em nenhum momento, oferece resistência ao policial. O pecado dele é estar ali, aparentemente. O sargento chega, desfere a coronhada covardemente, mas, para seu "azar", a arma dispara. E pode ter causado uma morte, como acontece com armas de fogo.

Trabalhei um ano na Secretaria da Segurança Pública de SP, como estagiário, e fiz questão de aprender muito sobre as polícias. Sei, por exemplo, e isso é bem básico, que um policial NUNCA pode agredir alguém desarmado e que não ofereça resistência à prisão. Muito menos com uma coronhada. Fora dos filmes de chefões, na vida real, isso é coisa de bandido.

E por isso classifico o caso como tentativa de homicídio. O policial, primeiro, não tinha porque agredir o cidadão. Segundo, se agride com a arma, sabe da possibilidade de ela disparar. E atingir alguém. Que foi o próprio agredido. "Lesão corporal grave" é o caralho, me desculpem o termo. Se fosse um torcedor brigando com outro, e as câmeras flagrassem, assino embaixo que o cara seria acusado de tentativa de homicídio.

Last but not least, se alguém argumentar "ah, mas ninguém sabe o que o torcedor fez antes de aparecer na imagem", eu digo: não importa. Como eu disse: com o "suspeito" desarmado e sem oferecer resistência, o policial deveria ter apenas algemado o Nilton e levá-lo para a cadeia, para responder pelo que foi acusado.

Veremos o desenrolar do caso, que deve durar uns dez anos e pode até libertar o sargento - que já está livre para aguardar seu julgamento, como pede nossa Justiça. Pena que a vida de Nilton César de Jesus corre sério risco.

Como eu já disse anteriormente, o futebol é apenas um detalhe nesse brasil. Mas as coisas que o envolvem refletem perfeitamente o porquê de isso aqui ser a zona que é.

E hoje só se fala sobre Ronaldo. Ele é o assunto. Desculpe, Fenômeno, mas deixo você e o meu Corinthians para um outro dia.

Pitacos de fim de Brasileirão

- Para começar, o primeiro Nacional sem o meu Corinthians. Analisei tudo de longe, sem se me preocupar com a paixão, porque ela estava fazendo um (merecido) estágio na Segunda Divisão, e agora à primeira retorna (também de forma merecida);

- É, agora não dá mais. Como um time que ficou 11 pontos atrás dos líderes e chegou a ficar de fora da zona da Libertadores consegue conquistar o título? Primeiramente, mantendo uma invencibilidade de 18 jogos. Segundo, contando com a fragilidade dos adversários, seja ela técnica (Grêmio), emocional (Cruzeiro) e/ou organizacional (Palmeiras e Flamengo, respectivamente). Em um meio tão provocador quanto o futebol, o São Paulo é insuportável para todos os outros torcedores, principalmente os rivais paulistas. Por quê? Porque dá tudo certo lá. E o clube se vangloria disso, de forma irritante. Mas reclamar do quê? O futebol é e sempre foi assim. Sorte e mérito deles;

- Mais um campeonato que acaba com 38 rodadas e 20 equipes de chororô contra a arbitragem. Da série "Para esquecer" do Brasileirão. Todo mundo reclama, mas o clube não procura aprender e orientar seus jogadores sobre a arbitragem. Como, então, cobrar da Comissão de Árbitros sem nem entender as regras do futebol direito?

- Porque os juízes, por sua vez, também demonstraram pouca familiaridade com as regras, sempre aplicando diferentes critérios e "estilos". Não estaria na hora de se ousar uma profissionalização para tentar a melhorar a classe? Afinal, é uma profissão, amadora apenas na hora de se pagar o trabalhador. A cobrança é imensa, mas como acabar com essa zona que é a arbitragem sem regularizá-la?

- Aliás, Brasil, o país dos chorões. O lugar onde sempre alguém é prejudicado por outro alguém que é mais esperto. Como posso fazer o bem, se o outro vai me passar a perna? Pensamento típico e triste na nação;

- Ainda ligado ao assunto arbitragem, bizarro pero importante o discurso de Carlos Eugênio Simon há pouco, na premiação da CBF sobre os melhores do campeonato. Bizarro porque ele enfrentou algumas vaias deselegantes, provavelmente daqueles cartolas chorões, com uma fala inflamada, pregando a favor do árbitro, o "álibi de todos os erros". Mas importante porque defendeu publicamente o Wagner Tardelli, colocado covardemente sob suspeita em um atitude misteriosa e mau-explicada de FPF e CBF. CBF essa que acabou cumprimentada de forma prevísivel e contraditória pelo próprio Simon, em seu discurso no estilo governador Covas x professores de SP, com direito a apupos e rostos constrangidos;

- Aliás, aparentemente o sr. Marco Polo Del Nero "não compreendeu" o peso de sua atitude, disse que a acusação sobre Wagner Tardelli pode ter sido um trote, que alguém se enganou, e blablabla. Covarde, caro Del Nero. Acuse, prove. Tinha o tal envelope, mostre-o. Explique. Como sua secretária conseguiu a informação de que o Tardelli receberia dinheiro, ingresso da Madonna, pedaço da grama do Morumbi ou o que quer que seja, para ajudar o São Paulo? Se foi dentro da FPF, vocês apuraram alguma coisa? Ou simplesmente falaram "olha, tem essa história aqui e vocês da CBF e do MP que investiguem, não sei de mais nada". Caso tenha sido apurado, estou certo de que será esclarecido. Se o cenário estiver mais para o "não sei direito como aconteceu" e "agora está tudo bem, já acabou", como parece, abandone já o seu cargo. Não se pode permitir tamanha leviandade de um presidente de uma federação estadual;

- Se fosse um jornalista e não provasse, certamente seria processado. Atitude que, espero, seja tomada pelo São Paulo, após o inquérito(?) do STJD sobre o caso;

- Com vocês, o tribunal que vai moralizar o futebol brasileiro: o STJD! Estrelando Paulo Schmitt. Socou o adversário? Tá pensando o quê, 3 meses de suspensão! Tá bom vai, um mês. Beleza, cumpra dois jogos que fica elas por elas. E foi assim o ano inteiro, sem coerência, prudência, eficiência e, principalmente, Justiça. Sempre gritando alto e agindo pouco, ajudando alguns e prejudicando todos;

- Voltando a falar sobre leviandade e jornalismo, é engraçado constatar que aqueles torcedores que acham que devemos "falar as verdades na televisão, denunciando as 'roubalheiras'" são os mesmos que dispensam um aspecto chamado "prova" para que tais "denúncias" sejam feitas. Sem provas, ou mesmo indícios, não temos história, ué;

- Sobre futebol? Falei no começo, esqueceu? É que não tenho muito a falar sobre aspectos técnicos, táticos e cháticos do futebol. Isso deixo para os outros feras que entendem bem mais sobre o assunto. E não faltam textos na internet sobre isso;

- Meu negócio mesmo é cornetar as chatices do esporte mais importante do Brasil. Com a esperança de que um dia ele se desenvolva, pelos menos nesses assuntos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Movimentado

Hoje, 24 de novembro de 2008, é o aniversário de um amigo meu, o mais antigo de todos, que completa 25 anos e a quem cumprimento pelo blog.

Também é o dia que eu quebro o silêncio que perdurou durante todo o mês onze, talvez o mais movimentado da minha vida no aspecto profissional.

Isso porque, desde outubro, estive dedicado a algum projeto para a FOL: primeiro, o especial sobre os 20 anos do primeiro título de Ayrton Senna na F-1; depois, a cobertura incessante da semana final da temporada 2008 da F-1, com coletivas de Felipe Massa e matérias pós-campeonato que emenderam com o especial do Senna; por último, o que considero minha melhor reportagem até hoje: a entrevista com Rob Halford - além da cobertura do primeiro show do Judas em SP.

Foi um mês corrido, sempre com algo importante na cabeça e prejudicado por uma certa inconstância do meu estado de saúde, com problemas que agora poderão ser curados.

Foi importante e reconfortante o contato mais próximo com a F-1, além da atiçante responsabilidade de tocar um especial sobre o maior ídolo esportivo do Brasil e meu principal ídolo de infância - e por quem tenho minhas ressalvas hoje, ajudado pela visão crítica que evolui com a idade.

Mas o desafio de comandar uma entrevista exclusiva, por telefone, com um dos mais importantes símbolos do metal, a quem ouço há dez anos e que co-escreveu a maioria das músicas de minha segunda banda favorita (Rush na frente), foi algo indescrítivel.

Sabia que valia a pena tentar porque era alguém que tinha o que falar. E que possui, acima de tudo, relevância jornalística. Fui atrás ainda no início de setembro, e valeu a pena.

Ainda colocarei aqui, na íntegra, a entrevista feita com o Halford, apenas para que fique o registro, e que isso não se perca na edição obrigatória para um veículo online.

Por enquanto, fica o registro do meu sumiço, mas com a certeza de que estou de volta postando, sempre que o tempo e/ou a inspiração aparecem.

E teremos tempo para debater tudo o que aconteceu. Já que não consigo postar no "heat of the moment", fiquemos com uma análise mais fria e pensada dos acontecimentos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Piquet, Tuvuca e o Youtube

Começo este post lembrando de como foi iniciada minha paixão pela F-1. Gostava muito de carros quando tinha uns cinco anos (hoje não ligo muito), e tenho em minha memória alguns flashes da temporada de 1990, de Ayrton Senna com um maço andante da Marlboro competindo contra um carro vermelho, o qual identificaria anos mais tarde como a Ferrari, pilotada pelo então tricampeão Alain Prost.

1991 foi um ano muito mais claro para mim, já conhecia as equipes, os pilotos, as pistas, o sistema de pontuação, o frisson causado por Senna no Brasil. Frisson que também migrou para a criança de sete anos, que só queria saber de corridas e velocidade. A vitória de Senna em Interlagos e o tricampeonato (relatado pela minha mãe na manhã seguinte, já que era o GP do Japão, de madrugada) são memórias ainda frescas em minha mente.

Esse ano, também, foi o último de Nelson Piquet na F-1. Me lembro dele na Benetton, com o Moreno e depois com o Schumacher, e admirava muito esse carioca debochado, que era totalmente o oposto do meu ídolo Senna. Apesar de saber de todas as brigas entre os dois, eu achava que o Piquet estava certo, afinal todos falavam que ele era mau-caráter e que só falava mal de todo mundo. Como eu era criança, e do contra (característica que, admito, ainda carrego um pouco), imaginava que o Piquet deveria estar certo, o que não diminuía minha torcida pelo Ayrton.

1992 foi um ano decepcionante, sem Piquet, e com Senna fazendo pouca coisa durante a temporada. Neste ano, porém, ganhei de meu falecido avô paterno um relançamento de duas revistas "Motor 3" do início de 1987, uma com um completíssimo resumo da temporada de 1986 e a outra com a apresentação de 1987. Guardo ambas até hoje, destruídas após 16 anos de folheagem incessante. São elas as minhas primeiras fontes automobilísticas.

Lá, descobri um pouco melhor quem foi Nelson Piquet na F-1, em uma fase em que lutava pelo título. Também descobri como foi a fase de Senna na Lotus, Prost na McLaren, Mansell na primeira passagem na Williams, além de descobrir os ex-campeões Keke Rosberg e Alan Jones. Enfim, onde comecei a saber mais sobre o passado da categoria que eu tanto devorava.

Os vídeos

Alguns anos depois, já superada a alegria pelo desempenho do ídolo em certas corridas em 1993 e o grande trauma de sua morte no ano seguinte, consegui descolar em locadoras as fitas de vídeo com o resumo das temporadas do tricampeonato do Ayrton (88, 90 e 91), além de, ironicamente, o VHS da própria temporada de 86. Vi imagens em movimento que só conhecia de ter "lido as figuras", lembrando uma celébre frase da obra-prima "Cidade de Deus".

Conhecendo um pouco essas temporadas, finalmente tive a chance de ver grandes ultrapassagens e corridas de Nelson Piquet, o "tricampeão desconhecido", sempre com a ótima narração de Reginaldo Leme. Foi quando busquei "vôos maiores": por que não encontrar os resumos das temporadas (os famosos "FIA Review") em que Piquet conquistou o título?

Infelizmente, nunca concretizei esse sonho. Tempos atrás, foram lançados os DVDs dos títulos do Ayrton, os quais já sei de cor. Como consolo, pude desfrutar também do bicampeonato do Emerson, felizmente resgatado pela Abril e a Quatro Rodas e também lançados em DVD (desta vez narrados pelo "Grandes Momentos do Esporte" Luis Alberto Volpe, hoje na ESPN Brasil).

Senna e Emerson tiveram o reconhecimento merecido pelos seus títulos. Por que o Nelson, primeiro tricampeão do Brasil na F-1 e "ovelha negra" dos brasileiros por conta das suas brigas com o Ayrton, não merece o mesmo destaque? Por que ninguém lança essas temporadas no Brasil? São perguntas que nunca foram respondidas.

Só acho que, com isso, o reconhecimento por Piquet diminui, sustentando apenas por aqueles que recordam de suas grandes corridas ou pelos que admiram muito sua personalidade e sinceridade, mesmo sem conhecer, em vídeo, os feitos do tricampeão.

Mas como aprender a história se ninguém resgata o registro histórico de um dos principais esportistas brasileiros de todos os tempos?

O Youtube

O Youtube, no entanto, pôs fim ao meu anseio. Queria fazer isso há algum tempo, mas só pude concretizar esse sonho no último mês, quando percebi que todas as corridas de 1981 já estavam em nosso glorioso e quase anárquico canal de televisão mundial.

Analisei, então, o desempenho do jovem Nelson na conquista de seu primeiro título, e agora já estou começando a ver as corridas de 1983, cuja temporada, infelizmente, não encontrei por inteira. O Youtube colocou na rede, por meio de seus usuários e de forma rústica, o legado de Nelson Piquet na F-1.

Não sei se o hoje "pai do Nelsinho" sabe disso, mas acho que agradeceria. Eu agradeço ao Youtube, mas continuo esperando por um DVD com os melhores momentos do nosso primeiro tricampeão na F-1.

Nada mais justo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Fórmula Punição


O mais triste em um campeonato esportivo dá as caras quando o talento e a habilidade são deixados de lado em prol do rigor na "aplicação das regras". Assim, pessoas que não estão participando da competição têm quase que o mesmo poder daqueles que vencem ou perdem partidas -ou corridas.

Já falei da chatice que são as tais "recomendações" da Fifa no futebol, repletas de interpretações dúbias, ambígüas, mal-explicadas e -o que é ainda pior- respeitadas apenas em certos países ou continentes. A discussão sobre o que vale ou não no futebol tomam mesas-redondas de qualidade duvidosa, mais preocupadas em "jogar para a torcida" de clubes grandes, além da parcela mais séria da imprensa esportiva, jogadores, árbitros e dirigentes. É um lenga-lenga sem fim e sem efeito prático.

A F-1, infelizmente, começou (ou voltou) a ser dominada por decisões estranhas de comissários, sempre "preocupados" com a "direção segura" dos pilotos, deixando velocidade e competitividade em segundo plano.

Nesses tempos, o piloto só pode tentar uma ultrapassagem se tiver 100% de certeza que vai concretizá-la. Se tiver o mínimo de dúvida, é melhor não arriscar, porque os comissários estarão olhando prontos para dar-lhe uma punição na pista.

Hoje, ou ontem no Japão, três pilotos foram punidos por seus erros. Na corrida aos pés do Monte Fuji, vencida de forma esplêndida por Fernando Alonso (o melhor piloto da categoria -vamos ver até quando, com a ascensão do Vettel), Felipe Massa, Lewis Hamilton e Sébastien Bourdais, foram prejudicados -sim, prejudicados- por comissários que se julgam donos do espetáculo -como os árbitros no futebol.

Para mim, das três punições, a única aceitável foi a de Massa, que realmente forçou a barra com Hamilton na chicane. Mas, mesmo assim, acho que foi apenas uma disputa de corrida, onde os dois erraram, forçaram demais. Massa acabou espremido pelo inglês, ficou fora do traçado, manteve o pé embaixo e o acertou depois -como acontecia em praticamente todo GP na década de 1980, e quase nunca alguém era punido.

Quanto a Hamilton, me pareceu brincadeira -ou perseguição- a punição ao inglês por fazer um monte de cagada na largada. O que ele fez para prejudicar os outros? Não ficou claro. Ele apenas errou, saiu da pista e prejudicou sua prova. Novamente, um incidente de corrida. Precisava estragar a corrida de Hamilton por causa disso? Não bastava ele mesmo jogar sua prova no lixo?

Já a punição ao Bourdais me cheirou um efeito bola-de-neve. "Bom, se já punimos o Hamilton pelas besteiras na largada e o Massa por bater no Hamilton, precisamos punir o Bourdais por atrapalhar o Massa." É isso -em busca de "coerência", é preciso punir todo mundo que cometa qualquer tipo de erro.

Hoje, Tostão escreveu em sua coluna na Folha que a "coerência é muitas vezes burra, e tem que ser ética e de princípios". Ele estava comentando sobre as escolhas de Dunga para a seleção brasileira, defendendo o poder das pessoas em mudarem de opinião. Para mim, seu raciocínio é perfeito para a F-1 de hoje.

Todos os pilotos cometem erros, e eles ficam mais visíveis quando envolvem aqueles que disputam as primeiras posições e o título. Isso é mais comum agora, quando não temos um Schumacher da vida dominando as corridas, e sim bons pilotos como Hamilton e Massa, que também são instáveis e por vezes barbeiros. Isso deveria ser encarado de forma mais natural e menos rigorosa por FIA e comissários, para que o resultado final não seja alterado toda hora em função de um incidente da corrida.

Enquanto o automobilismo envolver disputas de posição, ultrapassagens e arrojo, acidentes acontecerão, e é preciso aceitar isso.

Vale lembrar que Ayrton Senna foi campeão em 1990 tirando o Alain Prost da corrida, de propósito, em um acidente que poderia ter conseqüências piores para os dois. Um ano antes, o mesmo Senna foi desclassificado de forma estranha após um acidente com o mesmo Prost, no mesmo GP do Japão, em um episódio no qual a Fisa -braço-esportivo da FIA e que cuidava da F-1 na época- e seus comissários foram extremamente criticados por interferir demais nas decisões em Suzuka.

Em 1994, Schumacher foi campeão na Austrália depois de tirar Damon Hill da corrida, em um acidente muito polêmico -e sujo. No mesmo ano, o alemão e a Benetton travaram uma guerra com a FIA, que aplicou punições à equipe e ao piloto por conta de supostas irregularidades no carro de Schumacher e por sua conduta nas pistas. Na corrida final, no entanto, sua antidesportividade passou ilesa.

Três anos depois, o mesmo Schumacher, já na Ferrari, tentou fazer o mesmo com Jacques Villeneuve em Jerez, só que se deu mal e teve que abandonar a corrida. Foi o único prejudicado por sua bobagem e sujeira. Então, a FIA resolveu "dar o exemplo" e puniu o alemão com a perda de todos os seus pontos no campeonato. Assim, Schumacher perdeu o vice. Será que aconteceria o mesmo se ele tivesse conseguido tirar o canadense da corrida e conquistasse o título? Difícil saber.

Difícil saber porque esses comissários de prova são muito imprevisíveis. Quanto menos poder para eles, melhor.

Os campeonatos de 1989, 1990, 1994 e 1997 tiveram desfechos polêmicos porque estavam inseridos em um contexto no qual a FIA tomava atitudes baseadas em um regulamento que parecia valer uma coisa diferente a cada corrida.

Espero que a belíssima e equilibrada temporada de 2008, já manchada por conta de punições estranhas ao longo do ano (a maior delas na Bélgica, contra Hamilton), não se encerre com algum episódio semelhante envolvendo ao desses anos.

O tapetão precisa ser evitado a todo custo no esporte.

Foto: Kazuhiro Nogi, AFP

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Wright, por Waters

Há uma semana, mais ou menos, surgiu a primeira declaração de Roger Waters sobre o ex-parceiro Rick Wright após sua morte por conta de um câncer, no começo do mês. Claro que eu li com muita curiosidade, pois, infelizmente, nada melhor do que uma morte para suavizar as palavras.

Em outros termos, somente este período pós-tragédia envolvendo Wright permite a Waters admitir sua admiração pelo ex-companheiro, com quem teve diversos problemas e polêmicas.

Segue a tradução da declaração de Waters, publicada pelo Whiplash!

"Eu fiquei muito triste em saber da morte prematura de Rick. Eu sabia que ele estava doente, mas o final veio de forma repentina e chocante. Meus sentimentos estão com a família dele, particularmente com (seus filhos) Jamie e Gala e com a mãe deles, Juliet, a quem eu conheci muito bem nos velhos dias, e sempre gostei e admirei muito."

"Quanto ao homem e a seu trabalho, é difícil superar a importância da sua musicalidade no Pink Floyd dos anos 60 e 70. A sua intrigante influência do jazz, modulações e timbres tão familiares em 'Us and Them' e em 'Great Gig in the Sky,' o que deu a essas composições tanto sua extraordinariedade e humanidade e sua majestade, são onipresentes em todo o trabalho colaborativo que nós quatro realizamos naquela época. A percepção de Rick para as progressões harmônicas era nosso fundamento".

"Eu me sinto extremamente grato pela oportunidade que o Live 8 me proporcionou ao me reunir com ele, com David (Gilmour) e com Nick (Mason) por uma última vez. Eu queria que tivesse havido mais vezes."

"A percepção de Rick para as progressões harmônicas era nosso fundamento". Muito humilde, ainda mais quando nos referimos a Roger Waters. Ele ainda lamenta que o Pink Floyd não se reuniu mais, além do "one night only" no Live 8, mas isso aconteceu por conta do desinteresse de David Gilmour. E, infelizmente, ag0ra não tem mais jeito.

Ninguém melhor do que um Waters desprovido de ressentimento (e frustrado pela separação eterna do Floyd depois do "The Wall") para falar sobre Richard Wright, com quem fundou a banda ao lado de Syd Barret.

Como eu disse no meu post em homenagem ao tecladista, talvez ele receba, neste curto período pós-morte, o reconhecimento por toda sua obra na banda e no rock 'n' roll.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Sobre "ironias do destino"

Fiz um texto gigante, agora, colocando toda a retrospectiva dos eventos envolvendo Felipe Massa e Lewis Hamilton desde 1 de setembro, dia do GP da Bélgica de F-1.

A idéia era relembrar, passo a passo, todas as reviravoltas no campeonato nesses últimos dias, desde a vitória do inglês em Spa, a cassação da mesma, o GP da Itália, a FIA considerando inválida a apelação da McLaren sobre a punição ao inglês na corrida belga, culminando na lambança ferrarista em Cingapura. Sempre contextualizando e apontando as diferenças na classificação de acordo com cada cenário.

No final, que ainda não estava escrito, eu iria dissertar sobre a ironia que foi Hamilton ampliar em seis pontos sua vantagem para Massa na corrida de Cingapura depois da bobagem da Ferrari no primeiro pit stop do brasileiro. Afinal, Hamilton perdeu justamente seis pontos na briga pelo campeonato por causa de uma canetada dos comissários, que para mim foi injusta. Lembrando que, mantido o resultado original em Spa, Hamilton teria quatro pontos a mais, e Massa contaria com dois a menos.

Essa era a questão: seis pontos ganhos do céu (também conhecido como FIA) na Bélgica, seis pontos amargos e perdidos na prova noturna, por culpa exclusivamente sua - Ferrari, no caso. Uma ironia e tanto.

Assim, chegaria a algumas conclusões: primeiro, a Ferrari tem errado demais, demais nas corridas.

Segundo, as canetadas deveriam ser aplicadas quando o regulamento fosse bem claro em relação a chicanes cortadas e punições, o que não é o caso; parece aquela chatice da "regra interpretativa" imortalizada pela Fifa no futebol.

Terceiro, Hamilton e Massa fazem um belíssimo campeonato, dentro de suas capacidades; a F-1 não precisa de um piloto como Schumacher para ser espetacular (apesar que o Vettel vem aí), basta bons pilotos.

Por último, esse campeonato é o mais legal que eu vejo desde 2003, provavelmente, com a diferença de que não temos um Schumacher com um monte de novas regras contra si. Foram resultados diferentes, com vitórias de Robert Kubica, Fernando Alonso e principalmente Sebastian Vettel. BMW Sauber e Toro Rosso ganham suas primeiras corridas na F-1, enquanto que a Renault volta a triunfar pela primeira vez desde 2006.

Isso tudo estaria muito detalhado se não fosse um maldito comando de nome "Auto-Select" no Windows Vista. Explico: eu iria finalizar o trecho sobre a lambança da Ferrari ontem e precisava colocar que o Massa ficou em décimo-terceiro. Não achava, no laptop, o ordinário o. (como você nota, essa batalha ainda não foi vencida), para não ter de indicar o número por extenso.

Fui buscar com o botão direito, achei um "Encoding" e pensei: "é aqui mesmo!". Ledo engano. Por um motivo ainda não (e provavelmente nunca) compreendido, o texto sumiu, como em uma fábula. Para melhorar minha situação, o Blogger resolveu salvar meu texto naquele exato momento. Saí dele para tentar buscar sua versão "com texto", mas lá estava o post, todo branco, apenas com o título.

Que ganhou um novo significado após toda essa chatice inexplicável que ocorreu e me deixou extremamente irritado, sem o mínimo saco de escrever tudo de novo.

Bom, saiu isso aqui, acho que tá mais do que bom, tendo visto a circunstância. E prometo que salvarei os textos enquanto estiver escrevendo.

Já comecei, inclusive.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Há 30 anos: Uma explosão australiana (1)

Australiana, marromeno. Angus e Malcom Young, além do vocalista Bon Scott, são escoceses que migraram para a Austrália. Mas montaram a banda em Sydney, isso é fato, o que faz deles australianos também.

O caso do AC/DC no "Há 30 anos" é um pouco diferente em relação ao do Judas e do Scorpions, porque vou postar sobre dois discos. Ambos foram lançados em 1978 e fizeram história. Naquela época, a banda vinha de uma escalada de sucessos que culminou com Let There Be Rock (1977), seu melhor disco até então, na visão deste blogueiro.

Consistente e recheado de clássicos (Whole Lotta Rosie, Let There Be Rock, Hell Ain't a Bad Place to Be, Problem Child), o terceiro álbum de estúdio da banda (quarto na Austrália) é daqueles de alavancar carreiras ao estrelato.

Mas falaremos das obras de 1978, Powerage (agora) e If You Want Blood You've Got It (daqui a algum tempo - espero que não seja longo).

AC/DC -Powerage - 25/05/2008



1. "Rock 'n' Roll Damnation" – 3:37
2. "Down Payment Blues" – 6:03
3. "Gimme a Bullet" – 3:21
4. "Riff Raff" – 5:11
5. "Sin City" – 4:45
6. "What's Next to the Moon" – 3:31
7. "Gone Shootin'" – 5:05
8. "Up to My Neck in You" – 4:13
9. "Kicked in the Teeth" – 4:03


Powerage pode não conter tantos hits em relação a Let There Be Rock, mas é tão consistente quanto. Um disco feito inteiramente de boas músicas, sem exceção, e alguns momentos brilhantes.

Começando pela chamativa e famosa capa. A imagem de Angus Young sendo "eletrocutado" é uma das mais marcantes da história da banda e ilustra com perfeição toda a energia exalada pelo AC/DC em seus shows (e pelo guitarrista também).

A abertura com Rock 'n' Roll Damnation é empolgante, denunciando o que vem a seguir nos próximos 40 minutos de música. O AC/DC não tenta nenhuma modificação ousada em seu som, pelo contrário. Volta a fazer em Powerage tudo aquilo que consagrou a banda nos discos anteriores: um blues acelerado com guitarras pesadas, encostando no heavy metal. Uma junção suja de Hard Rock, Heavy Metal, Rock 'n' Roll e Blues.

Down Payment Blues tem uma ótima letra, relatando a simplicidade e o desleixo, dois símbolos do grupo. Logo no início, Bon Scott canta you know I ain't doing much/doing nothing means a lot to me ("sei que não estou fazendo muito/não fazer nada significa muito para mim"), que cai bem para descrever quem sempre reverenciou o simples e ignorou o complexo.

Já a terceira faixa, Gimme a Bullet, assim como What's Next to the Moon (e Cold Hearted Man que só aparece em versões européias de Powerage), é apenas uma ótima música, que compõe o disco e não produz nenhum destaque específico.

Sin City, que também chegou a ser executada ao vivo com Brian Johnson, fala sobre Las Vegas ou qualquer cidade que tenha cassinos, mulheres e bebidas em geral. Um clássico. Vale prestar a atenção na letra, como é habitual quando se refere a Bon Scott.

O final do lado B, com Gone Shootin (conheci essa na trilha sonora do filme do Beavis and Butthead, que eu tenho até hoje), Up to me Neck in You e Kicked in the Teeth é um chute nos dentes, literalmente, cheio de energia. Começando com o groove da primeira, totalmente blues, passando pela simplicidade da segunda e chegando até a zeppeliana música final, que começa com um monólogo do vocalista e vai crescendo de acordo com a letra da canção. Um final perfeito para Powerage.

Riff Raff, por sua vez, ficou por último por ser uma das melhores composições da história da banda, e a grande canção de Powerage, ainda mais depois de virar música-abertura da turnê do álbum. Acabou imortalizada como primeira faixa do clássico If You Want Blood You've Got It, que ainda receberá destaque maior neste blog.

O nome da música é bem propício por contar com um dos marcantes riffs dos irmãos Young. É um blues bem acelerado, uma mistura de Kiss, Grand Funk Railroad e Led Zeppelin, mal comparando. O refrão, berrado por Scott, é marcante, fácil de cantar e com um interessante jogo de palavras. Já o solo de Angus é inspiradíssimo, com uma cozinha ritmada, quase que como uma big band do rock 'n' roll.

Aliás, se um dia eu fizer um top 10 com as melhores guitarras em canções, tenho certeza de que Riff Raff estará na lista.

Os últimos versos da música definem não apenas o disco, mas a banda inteira. Parece um recado do AC/DC para o mundo.

I never shot nobody, don't even carry a gun
I ain't done nothing wrong, I'm just having fun
Riff Raff
It's good for a laugh
Riff Raff
Go on and laugh yourself in half

Em pleno 1978, com explosão punk e tudo mais, o AC/DC queria lembrar a todo mundo que o rock 'n' roll é, antes de tudo, diversão.

PS: Fica aqui o registro de um ótimo review sobre o disco, produzido pelo site Stilus e escrito por Edwin Faust (em inglês). É uma visão diferente e muito mais aprofundada do que a minha, com uma completa análise das letras e contextualizando o período vivido por Bon Scott na época.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

The Great Wright in the Sky


No último dia 15, foi-se Richard Wright, tecladista e um dos fundadores do Pink Floyd. Wright, sumido da mídia há algum tempo, padeceu de um câncer, em uma batalha curta, de acordo com informações de um porta-voz do músico.

Agora, mais de 40 anos após ter integrado uma das maiores bandas do Rock 'n' Roll de todos os tempos e que produziu uma obra de arte chamada The Dark Side of the Moon (1973), Rick Wright parece receber um pouco da atenção que mereceu durante todo esse tempo. Tanto de ex-membros da banda quanto da imprensa e da crítica em geral, incluindo a mídia especializada.

Digo isso porque sempre senti Wright como um dos músicos mais injustiçados e subestimados do rock, algo que aconteceu também porque este virou diminuto diante da imponência de Roger Waters no início dos anos 70 e da liderança de David Gilmour na década seguinte.

A saga de Wright no Pink Floyd se divide em três períodos: o início da banda, entre 1966 e 1975, da qual participu ativamente como compositor; o “ostracismo”, entre 1976 e 1983, quando chegou a ser demitido por Roger Waters e recontratado como músico de estúdio, além de ficar longe das composições da banda; e a fase coadjuvante, na nova encarnação do Floyd (sem Waters e com Gilmour liderando), que resultou nos álbuns A Momentary Lapse of Reason (1987) e The Division Bell (1994), época em que apenas figurou ao lado de Nick Mason em algo que pode ser chamado de “projeto solo” de David Gilmour.

Essa diminuição da importância do tecladista a partir de 1976 é, na minha opinião, inexplicável. As linhas de teclado de Wright ajudaram a compor a psicodelia comandada pelo ex-vocalista e guitarrista Syd Barret nos primeiros discos da banda. Nessa época, Wright também atuava nos vocais, geralmente fazendo backing.

Em Atom Heart Mother (aka “o disco da vaca, de 1970), Rick compôs, sozinho, o que é para mim a melhor canção daquele álbum: "Summer of ‘68". A música, que alterna momentos psicodélicos (herança do início da banda) com a sutileza de uma verdadeira balada, é até hoje (não sei exatamente o porquê) executada nas rádios brasileiras, mas totalmente esquecida pela banda. Não figura, por exemplo, na excelente coletânea Echoes (2001), e aparentemente nunca foi tocada ao vivo (até onde pesquisei, pelo menos).

No álbum seguinte, Meddle (1971), foi co-autor das duas músicas mais destacadas da obra: "One of these Days" e "Echoes", ambas compostas pelos quatro integrantes em parceria. Na segunda, Wright dividiu as linhas vocais com David Gilmour com maestria, em um belíssimo dueto, que voltaria a se juntar em "Time" e "Breathe" no disco seguinte, o já citado "The Dark Side of the Moon".

Foi nele que o tecladista compôs sua obra-prima, chamada "The Great Gig in the Sky", a qual este blog faz um trocadilho no título do post. Lá, Wright demonstrou toda sua técnica, auxiliada pelo histórico e emocionante solo da cantora Clare Torry, em uma música instrumental co-escrita por Roger Waters. O clássico "Us And Them" também surgiu da hoje inusitada dupla Waters/Wright.

Daí pra frente, ele foi deixado de lado, ou se deixou de lado, e viu Roger Waters assumiu a liderança do grupo. Brigou com o baixista, acusando-o de ditador, e este replicou dizendo que Wright simplesmente "não estava nem aí" para a banda. Estes atritos causaram a saída do tecladista (ou sua demissão) durante as gravações de "The Wall" (1979), onde foi creditado como músico convidado, voltando depois para a turnê da opéra-rock. Wright não participou do álbum-solo-de-Waters-com-o-nome-de-Pink-Floyd "The Final Cut" (1983).

O tecladista voltaria para o projeto Gilmour, que também incluiu o baterista Nick Mason, e co-escreveu cinco músicas em "The Division Bell" ("Cluster One", "What Do You Want From Me", "Marooned", "Wearing the Inside Out" e "Keep Talking"), nenhuma com o brilho de antes.

Richard William Wright, leonino, nascido em 1943, fez tudo isso pelo Pink Floyd, uma das bandas de rock que mais rompeu o universo da música para atingir outras formas artísticas, como cinema ("The Wall", o filme), artes plásticas (as capas dos discos) e teatro (a turnê de "The Wall").

No aspecto pessoal, suas linhas simples e marcantes me fizeram querer tocar teclado quando eu tinha 13 anos. Não consegui aprender praticamente nada, mas não esqueço daquele sentimento de moleque que me fascinava pela inteligência e concisão, algo que foi irradiado por todos os integrantes do Pink Floyd. Para mim, a criatividade de David Gilmour é a exceção. O Pink Floyd ensinou às bandas de rock como fazer do simples genial. E Wright, como já disse, é um símbolo disto tudo.

Além de esgotar as chances de a banda se reunir, já que seu membro menos carrancudo e mais animado se foi, a morte de Rick Wright o imortaliza como um coadjuvante em uma história na qual começou como um dos protagonistas. E sua trajetória declinante, aparentemente, nunca será esclarecida.

Agora, quem sabe, ele não receba o mérito do qual é de seu direito - um músico essencial para o Pink Floyd virar o que virou.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Felipe Massa, o número 1


Nos últimos dias, tem-se falado muito sobre a necessidade (ou não) de a Ferrari "promover" Felipe Massa como piloto número um da equipe para o restante da temporada 2008. Para isso, os brasileiros (e italianos) usam como argumento a boa fase de Felipe no campeonato (a melhor de sua carreira) e sua vice-liderança na classificação, com 64 pontos, a seis do líder Lewis Hamilton e sete à frente de Kimi Raikkonen.

Não sou a favor, e acho que a postura da Ferrari deve ser respeitada, mesmo com a fase de Felipe. Acho que descartar o finlandês, atual campeão mundial, restando seis corridas para o final da temporada, é um risco que os italianos não podem correr.

Kimi está a 13 pontos do inglês, e até me parece que ficará fora da briga pelo campeonato se Massa não tiver mais tanto azar.

O problema é que na F-1 atual o azar tem sido muito presente. Vide, por exemplo, o infortúnio de Felipe na Hungria, com a quebra de motor a três voltas do final, na atuação mais extraordinária de sua carreira. Ou aquela corrida no Canadá, com a lambança do Hamilton atingindo o Raikkonen nos boxes e tirando ambos da prova. Hoje, a Ferrari precisa do finlandês na briga, porque a F-1 voltou a um estágio, talvez temporariamente, onde os carros estão quebrando demais, diferentemente do ano passado.

Por isso, acredito que Massa será o piloto número um da Ferrari, mas precisa provar que merece. Até agora, tem feito isso com maestria, destruindo Kimi nas classificações e se firmando como o desafiante do rookie Hamilton, que também está louco por seu primeiro título, perdido em 2007 de forma dramática. Raikkonen, por sua vez, vai se apagando prova a prova. Não ganha uma corrida desde abril, quando faturou o GP da Espanha.

Para mim, em duas corridas, no máximo, Felipe atinge essa condição. É só confirmar sua boa forma nos GPs da Bélgica (cujos três últimos foram vencidos por Raikkonen) e Itália, para então desfrutar das regalias de um primeiro piloto.

Daí, quando a briga virar Hamilton/McLaren x Massa/Ferrari, as coisas ficarão bem mais simples para o ferrarista, primeiro brasileiro a lutar, de fato, pelo título da F-1, após 17 anos do tricampeonato de Ayrton Senna.

O melhor

Apenas um comentário final aos pachecos e corneteiros de plantão, sobre quem é o melhor piloto entre Raikkonen, Hamilton e Massa. Para mim, todos eles se mostraram rápidos e bons, mas inconstantes. Por isso, fica até difícil apostar em um deles para o título, já que o trio é basicamente do mesmo nível técnico.

Talvez se a disputa contasse com Fernando Alonso (em uma equipe que lhe desse todas as regalias que o espanhol exige, além de um carro bom) e a revelação Sebastian Vettel (que só precisa de um carro bom para mostrar do que é capaz) as coisas seriam mais difíceis para os três pilotos, porque esses dois parecem acima da média. Principalmente Vettel, que ainda é moleque de tudo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Impressões do fuso trocado

Bom, ainda estou tentando me adaptar ao velho fuso horário e à rotina de acordar de manhã e dormir à noite. Foram duas semanas trabalhando das 20h às 5h e não consegui me reacostumar, em dois dias, com o nosso querido fuso horário de Brasília.

De qualquer maneira, gostaria de postar algumas coisas sobre a gloriosa Olimpíada de Pequim, que viu a China dominar tudo, desde o quadro de medalhas até o conteúdo permitido aos jornalistas na internet da sala de imprensa. Viu também histórias bizarras, como o sumiço da vara da Fabiana Murer, o chute do lutador cubano no juiz do taekwondo e o sueco da luta greco-romana que deixou sua medalha de bronze no chão por conta de sua revolta com a arbitragem.

Teve também um tal de George W. Bush aparecendo em tudo quanto é esporte, dando manchete, com camiseta suada e cheia de pizzas, além de tirar fotos com todos os atletas que apareciam na sua frente. Aquele mesmo que, antes dos Jogos, disse a todo o mundo que a China "deveria respeitar os direitos humanos", recebeu duras críticas do governo chinês e que foi só sorrisos depois que desembarcou em Pequim.

Foi a Olimpíada da consagração de Phelps como o maior campeão olímpico de todos os tempos, do "Lightning Bolt" massacrando recordes mundiais e das mulheres brasileiras colecionando medalhas e arregaçando os homens, em comparação aos Jogos anteriores, com exceção do Cielo e do primeiro ouro do país na natação, claro.

Bom, isso todo mundo viu e já sabe. Foram escritas inúmeras linhas falando de todos esses casos, e não creio que eu tenha muita coisa a acrescentar. A não ser sobre a participação brasileira, que merecerá posts à parte.

Assim, escrevo quatro comentários sobre minhas impressões, ou o que mais me chamou a atenção, na cobertura da gloriosa Olimpíada pequinesa.

- Picaretagem
A história da menina bonita que dublou a menina feia na cerimônia de abertura foi um tiro no pé do Bocog (que organizou os Jogos). É simplesmente incompreensível os caras tomarem essa atitude antipática, desumana, com uma criança. Depois, ainda assumiram a picaretagem na maior cara-de-pau. Foi lamentável e totalmente queima-filme para os chineses, que se demonstraram tão (ou mais) preocupados com a aparência quanto seus amigos ocidentais, notáveis pela criação da "sociedade do espetáculo" (do Guy Débord). Tudo pelo "bem coletivo", certo Pequim?

- Chatice
Tá certo que Olimpíada é o ápice para aqueles que amam esporte. Mas existem esportes que simplesmente não dá para agüentar, pelo menos para nós daqui, ou eu em particular. Enumero abaixo as chatices olímpicas (espero que quem as pratique não me leve a sério):
- Marcha atlética (qualquer uma): ver homens (ou mulheres) fazendo todo aquele movimento constrangedor e andando pequenos percursos de 20 ou 50 km é um teste para a paciência. Não entendo o conceito de uma competição onde é preciso rebolar o mais rápido possível.
- Beisebol: só americano pra gostar mesmo. Eu já li a regra umas 500 vezes, quando acho que entendi eu assisto aos jogos e percebo que não entendo picas. E demora horrores, ainda por cima. O esporte, que fez parte pela última vez dos Jogos (será que volta em Chicago-2016, se os americanos ganharem?), já vai tarde.
- Mountain bike (cross country, não BMX): simplesmente demora demais e é chato de assistir.
- Ginástica rítmica e de trampolim: esporte? Será mesmo? Um monte de gente dançando e pulando na cama elástica?
- Nado Sincronizado: aplicam-se os mesmos comentários acima. Parece mais uma apresentação teatral.
- Hóquei na grama: hóquei de verdade é no gelo. Hóquei na grama é igual a futebol de praia.
- Judô: aí o problema não é o esporte, que eu até gosto de assistir. São os narradores e comentaristas que sempre tentam adivinhar a marcação dos juízes e erram 110% das vezes. É insuportável.
- Hipismo: é tradicional, eu sei. Mas tenho muita pena dos pobres cavalos de nomes estranhos e bizarros, como "Bonito Z". E me deixa puto quando dizem que automobilismo, que gera muito mais esforço físico, não é esporte "porque depende mais da máquina do que do piloto". E o hipismo depende mais do ginete do que do cavalo? Desde quando? Por último, é muito mais legal andar a cavalo do que assistir aos outros andando.
- Lutas: aquelas roupinhas agarradas, com os homens tentando se derrubar em posições unusuais. É constrangedor demais, assim como a marcha atlética.
- Pólo aquático: concordo que é um esporte, e tem seus méritos. Mas é lento e chato de assistir. É mais legal jogar, apesar de eu sempre me afogar nas minhas tentativas.
- Saltos Ornamentais: não tão chato e mais esporte do que o nado sincronizado, mas também não se salva.
- Softbol: ver "beisebol".
- Taekwondo: o problema tá na regra, que estimula a retranca dos competidores. Quase sempre que o cara tenta encaixar um golpe, ele sofre o contra-ataque e a pontuação. O bom é ficar cozinhando até conseguir o golpe perfeito, senão a vaca vai pro brejo. Azar de quem assiste, que vê inúmeros chutes e muita porrada, com o placar final de "2 a 1 para Fulano". O taekwondo dá raiva, porque é uma luta extremamente interessante e que tinha de tudo para contar com combates mais dinâmicos. Parece o vôlei de antigamente, que tinha aquela chatice de "vantagem" para cá e para lá e ninguém pontuava. Ainda bem que, nesse caso, a Federação Internacional de Vôlei percebeu que as mudanças eram necessárias.
- Vela: deixei por último porque é com "v" e também porque eu acho hoje menos chato do que há alguns anos. Comecei a entender todo aquela coisa de várias regatas e bóias, ventos, e tudo mais. Mas é dose, porque não dá pra saber quem está na liderança e a hora em que a prova vai acabar, simplesmente porque os caras estão no mar, quase que navegando cada um para um lado. Mas a tal da "medal race", ou regata final, é bem legal.

- Legais
Fugindo das obviedades, e sem entrar em detalhes, gostei de assistir provas do arco e flecha (ou tiro com arco), ciclismo de pista (bem emocionante), esgrima, pentatlo, triatlo e pingue-pongue.

- Propagandas insopurtáveis
"Extra, extra", vai para o inferno. A "valeu a pena" da Vivo também irritou nossos nervos, já que a alternância exclusiva entre essas duas propagandas, no Sportv, tirou a gente do sério. Depois, sumiu a "valeu a pena" e apareceu a da Citroën, com a versão pirata e repetitiva de "Ken Lee", da Mariah Carey.
Na ESPN, o duro era agüentar aquela velha chata gritando "Caloooooooorrrrrrr" na propaganda da Sol.
Na Globo, o Leonardo cantando a música do Apracur. Nem preciso falar mais nada.

E esses são os pitacos da "maior de todas as Olimpíadas" (ooohhhhhh!).

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Judas no Brasil

Eles voltam, para delírio de todos. O site oficial do Judas Priest confirmou na sexta-feira a informação que já havia sido revelada pela Ticketmaster. Os shows até agora anunciados estão marcados para Porto Alegre (Teatro Bourbon, 12/11) e São Paulo (Credicard Hall, 15 e 16/11). Espero que Curitiba, Rio e BH também ganhem sua boquinha.

Assim, a constatação é de que 2008 precisa ser lembrado, no futuro, como o ano em que vimos Judas Priest e Iron Maiden, as duas maiores bandas da história do Heavy Metal, fazerem shows clássicos no Brasil.

O Judas é a minha segunda banda do coração, só perdendo para os canadenses nerds do Rush. Vi um grande show com o Ripper Owens neste mesmo Credicard Hall, em 2001, e presenciei uma apresentação histórica no Anhembi, em 2005, já com Rob Halford.

Ansioso estou desde já, e vou tentar de tudo para ir nos dois dias em SP. Sei que vale a pena. Para quem curte a energia, o deboche e a agressividade de Halford e cia, únicos no Heavy Metal, é obrigatório.

ET: Ouvi o "Nostradamus" pela primeira vez no último final de semana, e a impressão não foi das melhores. Achei muito repetitivo e sem uma grande canção pra se destacar (como é o caso da "Judas Rising", um clássico que valia pelo "Angel of Retribution", de 2003, inteiro). Mas vou comprar o disco e farei uma análise mais precisa.

PS: Foto por Amanda Ayre, do judaspriest.com. Show do Judas em Vancouver - 24/07/2008.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Tuvuca olímpico

Nunca fui um blogueiro assíduo, é fato. Mas creio que a cobertura dos Jogos de Pequim vão me deixar ainda mais ausente neste endereço virtual. Essa coisa de trocar de fuso sem trocar de país é realmente bem confusa.

Mas não vejo a hora de o negócio começar de verdade.

terça-feira, 22 de julho de 2008

E Mel Galley se foi

Sei que estou mais de 20 dias atrasado no assunto, mas não faz mal. Aos 60 anos, o ex-guitarrista do Trapeze e do Whitesnake Mel Galley morreu de câncer no dia 1 de julho.

Em fevereiro, dediquei um longo texto a Mel Galley no Rock Tales, de Bruno Vicaria, reproduzido também aqui no blog um mês depois, contando sobre quem foi o guitarrista e a doença revelada por ele próprio, na época. Com câncer terminal, ele mesmo admitira que tinha poucos meses de vida.

"Fui abençoado com uma esposa fantástica e dois filhos de quem me orgulho muito, por isso, no momento, meu grande objetivo é conseguir celebrar meu aniversário de 60 anos em março. Eu tive uma vida muito boa, viajei o mundo inteiro, tive experiências maravilhosas, encontrei todo tipo de gente e toquei com os melhores músicos. Quando comecei, nos anos 60, jamais imaginei que poderia chegar tão longe", dizia um trecho da emocionante carta escrita por Galley.

Como disse no texto do blog, ele conseguiu seu maior objetivo, que era o de chegar aos 60 anos de vida. Deve ter comemorado demais o aniversário. Mais um em uma vida "muito boa", como definiu o próprio guitarrista.

No show do Whitesnake em SP, em maio, David Coverdale homenageou "Love Ain't No Stranger" "ao amigo" Galley, co-autor da música. Glenn Hughes, por sua vez, disse que Galley o "conduziu pela mão" em seus primeiros passos como músico.

A morte é sempre triste. Mas ver alguém deixar a vida de forma tão simples e "positiva", principalmente quando essa pessoa teve alguma fama, é um aprendizado a todos.

Feliz 60 grandes anos.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Parabéns ao GP

PLAGIANDO GOMES (merecido) - Há mais ou menos dois meses, no dia 20 de maio, o Grande Prêmio foi agraciado com seu primeiro prêmio iBest. O site de Flavio Gomes, meu segundo emprego e primeira experiência trabalhando com Esporte, venceu na categoria "melhor site de esportes do Brasil", votação popular, desbancando "gigantes" como Globoesporte.com e ESPN Brasil.

Na época, eu estava em "recesso" no blog e acabei passando direto pela conquista. Conquista essa que me deixou muito orgulhoso por ter sido a vitória de um veículo "nanico" contra a grande imprensa. Sei do trabalho que dá para manter o site atualizado com uma equipe menor do que os grandes portais, e sem contar com todo o staff técnico que eles tem à disposição. Sem contar as credenciais, difíceis de arranjar, mas que sempre se arrumava um jeito para isso.

Fiquei orgulhoso também porque passei por lá entre setembro de 2006 e março de 2007 e fiz coisas muito legais no GP Acompanhei a marcante coletiva do Schumacher no GP Brasil de 2006 - aquela da tartaruga "Rubens", entregue ao alemão pela dupla Vesgo/Silvio, do Pânico. Até outro dia, foi o recorde de audiência na história do GP, parece que foi superado pelo domingo da corrida de Silverstone da F-1, na semana passada. Também tive a honra de entrevistar o "dinossauro" Paulo Gomes e cobrir a final da Stock em SP, além de acompanhar uma etapa da Stock no Rio. Foi minha primeira viagem "a serviço", essa. São apenas alguns exemplos.

O prêmio mostra todo o reconhecimento de quem realmente importa, que são os leitores. Fizeram campanha pelo GP na votação do iBest e emplacaram o "título". Foi realmente impressionante a devoção das pessoas para dar a vitória ao site.

Por lá, trabalhei com o chefe Gomes, o subchefe Victor, o subsubchefe Vicaria, meu veterano de faculdade, além dos brothers Mindu e Arantes. Com todos aprendi e de todos guardo ótimas recordações, mantendo contato sempre que possível.

Também fiquei feliz pela citação nos blogs do Gomes e do Victor, que fizeram questão de homenagear os atuais membros do GP e todos os ex-membros também, citando todo mundo que trabalhou no site. Foi um gesto de muita simpatia e que demonstra o reconhecimento pelo trabalho feito no GP ao longo dos anos. Lá, entendi o que significava, de verdade, jornalismo isento e sem rabo preso.

Parabéns de verdade.

domingo, 13 de julho de 2008

Acabem com os pênaltis


Parabéns à LDU, parabéns ao Fluminense.

Com mais de uma semana de atraso, não vou comentar sobre as circunstâncias que fizeram com que o time carioca perdesse aquele que seria o maior título de sua história. Todo mundo já falou sobre isso, com muito mais propriedade, e eu não tenho nada a acrescentar.

O que eu quero comentar é sobre a maldita disputa de pênaltis para decidir um título. É injusto demais. Creio que o futebol seja um dos poucos esportes que têm uma definição como essa, baseada puramente na sorte.

Sim, é sorte. Essa história de "pênalti é treino" é a mais pura balela. Não defendo aqui que as cobranças não devam ser treinadas. Precisam ser ensaiadas, e muito. Só não acho que o treino defina a favor (talvez contra). Isso porque todas as equipes acabam treinando, e muitas vezes isso acaba não influenciando em nada. O que pega mesmo é o equilíbrio emocional e a frieza.

Porque na hora da cobrança, o craque some e quase sempre erra. Nem preciso lembrar exemplos como Zico (Copa 86), Baggio (Copa 94), Marcelinho (Libertadores 2000), Cristiano Ronaldo (Champions 2008), Romário (Mundial 2000), Edmundo e Palermo (em quase todas as cobranças)... A responsabilidade pesa demais? Talvez. É mais fácil ser um zagueirão qualquer e encher o pé. Esses caras quase sempre acertam.

Outra coisa: às vezes o goleiro se adianta demais e defende. Dida fez isso a carreira inteira e deu certo. E, fora do Brasil, é praticamente irreal que o juiz marque esse tipo de infração. Mais uma das brigas da Fifa com as regras -indefinidas e não esclarecidas- do futebol.

Por último, cansei de ver jogos tão complicados e cheios de alternativas sendo decididos em cinco chutes a gol. Sinceramente, percebo que tudo se resume a isso. Esses cinco chutes do seu time e os outro cinco do adversário. É pequeno demais para o tamanho de uma decisão de Taá Libertadores.

Como solução, sugiro que sempre se ache algum tipo de vantagem para um dos times. Gols marcados fora de casa ou melhor campanha na competição, pra começo de conversa. No caso da Libertadores e de alguns outros torneios (nos quais a "melhor campanha" é subjetiva, pois os adversários enfrentados são diferentes), sugiro uma segunda prorrogação (valendo gol de ouro) e a possibilidade de substituir todos os jogadores possíveis, para que o time se renove.

Não é nada muito técnico e nem elaborado, você pode até dar risada das minhas sugestões. Mas são apenas divagações, de alguém que não agüenta mais ver o futebol sendo decidido praticamente no "cara e coroa", com a moeda sendo jogada dez vezes para o alto. Vamos encontrar algo mais justo. Até para poupar nossos corações.

Crédito da foto da merecida campeã (pênaltis à parte): Bruno Domingos (Reuters)



Parabéns

23 anos de Live Aid, realizado em 13 de julho de 1985, dia em que foi decretado o Dia Mundial do Rock.

Este blog, a quase um mês sem postar nada, deseja um feliz aniversário ao Rock 'n' Roll.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Há 30 anos: Uma explosão Heavy Rock (2)

Como já escrevi no post inicial sobre a tal explosão heavy rock, 1978 foi um ano confuso e de transição para o rock 'n' roll. E uma das coisas mais curiosas é que muitas bandas hard rock resolveriam partir para o pop no início da década de 1980, mas outras investiram cada vez mais no peso.

Isso aconteceu com o Judas Priest, a quem considero o primeiro grupo que buscou o heavy metal. O heavy metal que digo é aquele que conhecemos hoje, caracterizado pelo som pesado, rápido (às vezes nem tanto), "cavalgado" e geralmente acompanhado de um visual agressivo dos membros da banda - assunto que teve forte colaboração do Judas, que imortalizou o couro e o transformou em um item quase obrigatório no guarda-roupa metaleiro.

Na verdade, penso que o Black Sabbath é o maior pioneiro heavy metal, mas o próprio Ozzy discorda desse termo. Para ele, o Sabbath é uma banda de heavy rock. Mesmo criando a base sonora (e também visual) do estilo, o Sabbath mostrou sempre deixou claro suas origens e influências, que vinham até do blues. O Judas Priest, apesar de seu primeiro álbum, já "nasceu" heavy metal. O Sabbath mostrou o caminho que deveria ser seguido, e o Judas foi lá e seguiu.

Agora vamos para o álbum que, para mim, mudou a história da banda. E, para mim, é o melhor dentre os que eu classifiquei na "explosão heavy rock".

Judas Priest - Stained Class - 10/2/78

1. "Exciter" – 5:34
2. "White Heat, Red Hot" (Tipton) – 4:20
3. "Better By You, Better Than Me" (Gary Wright) – 3:24
4. "Stained Class" – 5:19
5. "Invader" (Halford, Tipton, Ian Hill) – 4:12
6. "Saints in Hell" (Halford, K.K. Downing, Tipton) – 5:30
7. "Savage" (Halford, Downing) – 3:27
8. "Beyond the Realms of Death" (Halford, Les Binks) – 6:53
9. "Heroes End" (Tipton) – 5:01

Produzido por Dennis Mackay

"Stained Class" foi o primeiro tiro certo do Judas no heavy metal. Após um primeiro disco confuso, sem direção e mal produzido ("Rocka Rolla", de 1974), os caras começaram a achar o caminho com "Sad Wings of Destiny" (1976), também porcamente produzido mas coeso e com os clássicos "Victim of Changes", "The Ripper", "Genocide" e "Tyrant". "Sin After Sin" (1977), com produção de Roger Glover (baixista do Deep Purple), trouxe mais peso em praticamente todas as faixas.

Mas a abertura de "Stained Class" já demonstra como o grupo acertou a mão neste álbum. "Exciter", com dois bumbos, velocidade, agudos de Rob Halford, letras agressivas, duelos e solos de guitarra e ótimas viradas de bateria, graças a Les Binks, que estreou no banquinho naquele disco e deu saudades quando saiu, em 1980, para dar lugar ao famigerado Dave Holland.

"White Heat, Red Hot" e o cover "Better By You, Better Than Me" são ótimas canções, com bons refrões, e que mantém a evolução do álbum. Já a faixa-título é outro grande destaque pela base "cavalgada", os vocais sobe-e-desce de Halford e novamente pelo trabalho das guitarras.

"Invader" e "Savage" são os tradicionais "fillers", para segurar a barra no disco. A faixa final "Heroes End" traz o Judas de volta ao início da carreira, mais hard rock e com um estilo levemente exótico, até na performance única de Halford.

O destaque final é "Beyond the Realms of Death", penúltima canção, que não é uma das minhas favoritas mas inegavelmente impera como um dos maiores clássicos do grupo. É o mais próximo que "Stained Class" chega de uma balada, algo até raro na carreira inteira do Judas, que sempre se meteu a compor canções lentas, cuja qualidade varia. É sem dúvida uma letra interessante, um pouco sabbathiana, cujo tema é suicídio.

O desempenho de Halford novamente chama a atenção pela emoção com a qual o vocalista carrega a música, interpretando o enredo da canção. A ponte entre o trecho lento e o rápido também convence, e quem dá show mesmo é Glenn Tipton. Na minha opinião, Tipton sempre teve mais apelo melódico (e talento) nos solos do que o parceiro KK Downing, mas isso fica escancarado no melhor momento de "Beyond the Realms of Death", que é justamente o solo emocionante de Tipton, um de seus preferidos. Muita gente diz que "Beyond the Realms of Death" é a "Stairway to Heaven" do Judas. Como as duas são clássicos de suas respectivas bandas, variam entre guitarras pesadas e acústicas e com excelentes solos, acho que essas pessoas têm razão. Aliás, "Stairway to Heaven" nunca foi uma de minhas favoritas do Led Zeppelin...

"Stained Class" mostrou ao mundo que o Judas Priest falava sério, apesar da postura exótica e agressiva do grupo. Soube incorporar um pouco do visual punk no heavy metal, fundamental para estabelecer o estilo "maltrapilho". Além das excelentes músicas, o disco mostrou uma consistência inédita para a banda, importantíssima para que o Judas Priest definisse sua identidade e, seguindo os passos do Black Sabbath, criasse os alicerces do heavy metal.

"Stained Class" também ficou à frente de discos semelhantes da época por conta de seu foco direcionado à elaboração das canções pesadas, e influenciou praticamente todas as bandas de heavy metal que apareceram nos anos seguintes. O fato de ter conseguido relativo sucesso também mostrou o estilo como viável e deu confiança à banda para continuar com sua identidade e investindo nas composições diferentes.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Amargo regresso


Tudo bem que o Corinthians voltou para a Série B e as coisas logo voltaram ao normal. Uma goleada por 4 a 1 sobre o Brasiliense depois da chorada perda do título da Copa do Brasil. Mas não perdi o trocadilho com o famoso filme de 1978, estrelado por Jon Voight e dirigido por Hal Ashby.

O Corinthians fez tudo certo no torneio nacional. Jogou com garra, coesão e até mesmo técnica. Tudo até os 90 minutos finais. Veio o brancão, uma seqüência de erros e um vice-campeonato mais do que justo.

Não há desculpa para a derrota acachapante. Simplesmente não houve futebol para o Corinthians. A equipe entrou confiando na marcação, que não tomaria um gol do Sport. Quando sofreu o primeiro, e logo depois o segundo, todo mundo tremeu. E a Ilha do Retiro falou alto. Os jogadores do Corinthians, "acostumados" a lidar com a segunda maior torcida do Brasil, sucumbiu à pressão dos torcedores do Sport. Do time do Sport. De tudo.

O Sport, aliás, apenas jogou futebol. O resto é desculpa. Os caras foram lá e provaram o que diziam, e o maior símbolo do time foi Carlinhos Bala. Ele sempre acreditou no título, mais até do que os jogadores do Corinthians, que havia vencido o primeiro jogo por convincentes 3 a 1.

Há de se lamentar também a falha do Felipe no segundo gol. Mais lamentável ainda foi a atitude dos que resolveram culpar o goleiro pelo time não ter jogado nada. Esqueceram que, na semifinal, quando o time também não rendeu o esperado no segundo jogo com o Botafogo, Felipe defendeu o último pênalti dos cariocas e deu ao Corinthians a vaga na decisão. O mais fácil, no entanto, é achar um único culpado para as coisas.

Outro suposto culpado foi o árbitro Alício Pena Júnior. Desse, não tenho muito o que falar, simplesmente porque, na minha visão, ele não influenciou no resultado. O tal pênalti no Acosta foi apenas duvidoso, e quando é duvidoso não dá para discutir com o cara que tem que decidir um lance desses em uma fração de segundo (clichezão esse...). A expulsão do Saci só dá para culpar o próprio pela cagada. E também Carlinhos Bala, pela catimba ter dado certo...

Por fim, a culpa é de todo mundo que jogou e tremeu quando precisava apenas fazer um gol. Aquele time que enchia os olhos não teve frieza o suficiente para se levantar. E, por último, Mano Menezes, que colocou a equipe para apenas se defender confiante de que a defesa daria conta do recado. Talvez se entrasse pressionando o Sport, como ele disse, antes do jogo, que iria fazer...

E que as desculpas fiquem para trás e que o elenco, que é bom, se reerga para a disputa da segunda divisão.

Guerra, guerra, guerra

Ouvi tanto falar em "guerra" para essa partida. No fim, não deu em nada. Mas ficou a lição de que essa rixa entre estados foi patética.

Parece que Pernambuco, em um aspecto geral, tomou a vitória do Sport como sua. Como um triunfo de Pernambuco sobre São Paulo. Não foi nada disso. O título é apenas do Sport. Não que os pernambucanos não devam comemorar o êxito da equipe de seu estado, apenas que não transformem isso em uma vitória sobre os paulistas. Paulistas esses que, em sua maioria, riram da cara de sofrimento dos corintianos e da apatia do time do Parque São Jorge.

Não é guerra de estados, nem do Nordeste contra o Sudeste. É apenas um jogo de futebol.

Infelizmente, sei que baianos, pernambucanos e paraibanos que moram por aqui sofrem muitas vezes com um preconceito cego e histórico sobre suas origens. Infelizmente também, não vai ser uma vitória do Sport que mudará isso, muito menos quando se refere a mentes ignorantes, responsáveis por esse preconceito.

Ingressos

A palhaçada dos ingressos vendidos no Recife, até por um dirigente do Sport, que fazia cambismo, precisa ser investigada pela CBF. Aquilo foi o cúmulo do desrespeito com os torcedores.

Primeiro, essa história de que o time visitante tem direito a 10% da cota total de ingressos de uma partida, que está no famigerado Estatuto do Torcedor, precisa ser esclarecida. Se a polícia vetar, por causa de problemas com a lotação dos setores dos estádios, o que fazer? A CBF e o STJD, do promotor-celebridade Paulo Schmitt, poderiam muito bem explicar direito como o time mandante deve agir, quais procedimentos tomar, etc...

O que aconteceu na Ilha do Retiro foi escancarado, mas não um caso isolado. Por estas bandas, o Corinthians também passou por um episódio mal-explicado com o Botafogo, na semifinal. Por isso que quem manda no futebol do Brasil precisa se meter nessa história e impedir esse tipo de atitude, seja em Pernambuco, São Paulo ou onde for. Quando as coisas são padronizadas, tudo fica mais fácil.

Por fim, os corintianos que foram a Recife sem ingresso não podem reclamar de muita coisa. Mesmo que o Sport garantisse os tais 10% da cota para o Corinthians, quem iria garantir que todo mundo conseguiria sua entrada?

É, são muitas coisas que precisam ser estudadas por aqueles que se dizem especialistas no assunto, mas que não tomam as atitudes devidas quando a bomba estoura.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Tuvucanadá: Montréal

Neste último final de semana, tivemos o GP do Canadá de F-1, disputado no circuito Gilles Villeneuve, em Montréal. Cidade que eu fiz questão de visitar, obviamente, em minha jornada franco-canadense.

Fiquei por seis dias em Montréal, que é um belíssimo lugar. Cosmopolita, mas que guarda o charme da velha cidade fundada pelos franceses no século XVI. Duzentos anos depois, foi tomada pelos britânicos, mantendo as raízes gaulesas, assim como Québec City. A veia separatista, no entanto, não me pareceu tão forte em Montréal como acontece na capital da província de Québec.

O post não será longo como os outros textos canadenses, apenas quero descrever minhas impressões sobre o circuito, que fica na Ile de Notre Dame, uma ilha artificial criada com pedras retiradas das escavações para a construção do metrô (o charmoso "Metró" de Montréal). Ela foi elaborada para a Expo 67, feira mundial de exposições realizada na cidade em 1967, um evento marcado pela consolidação da identidade dos "Quebécois" e que contou com a presença de diversos personagens importantes, como o presidente dos EUA na época, Lyndon Johnson, a rainha Elizabeth II, e Charles de Gaulle, presidente francês (autor da famosa frase "Vive le Québec libre" durante um discurso no evento, o que causou um incidente diplomático com o Canadá e incendiou os separatistas franco-canadenses).



O que tenho a dizer é que a pista, que se esfarelou e causou inúmeros problemas aos pilotos neste final de semana da F-1, é maravilhosa. E, como fica em um parque, é aberta a qualquer um que queira visitá-la. Não tive problemas para entrar e tirar as fotos, inclusive do famoso Muro dos Campeões, junto à reta dos boxes, no qual todo piloto de verdade (Michael Schumacher, Jacques Villeneuve, Damon Hill, Mika Hakkinen, Jenson Button, Juan Pablo Montoya, entre muitos outros) já bateu pelo menos uma vez na carreira. A marca do muro está lá, eterna.

Andei quilômetros pela pista, vazia. Não há muito o que dizer, estava tudo desmontado. Deu para admirar toda a "natureza artificial", maravilhosa, e que traz uma ótima sensação de tranqüilidade, quebrada pela corrida da F-1 uma vez por ano. Tem também o belo Cassino du Montréal, onde os bem-bonados gastam toda sua grana.


Fico triste com a possibilidade de cancelamento do GP de Montréal, considerando todos os problemas do circuito. Além da pista esfarelada, as áreas de escape sempre foram pequenas (e sem muita possibilidade de expansão), mas acho que a organização do autódromo deve se preocupar mais com sua preservação, pois é um local histórico e maravilhoso. Merece a F-1, por tudo que representa.

É uma pista rápida, com um belo cenário e histórico para a categoria. Marcou a primeira vitória do nativo Gilles Villeneuve na F-1, em 1978, no debút das etapas em Montréal. Para mim, Villeneuve é o maior piloto da F-1 que nunca ganhou um título (até porque morreu em 1982, com apenas 32 anos, antes de concretizar seu sonho). Foi um showman da categoria, sempre pilotando com a faca nos dentes, e recebeu uma bela homenagem no circuito.

No domingo, Robert Kubica levantou a taça de vencedor na F-1 pela primeira vez. Também foi a primeira vitória da história da Polônia, assim como Montréal inaugurou os triunfos do Canadá na categoria com a vitória de Gilles em 1978. A pista ainda celebrou as primeiras vitórias na F-1 de Lewis Hamilton, no ano passado, e de Thierry Boutsen, em 1989. Em 1995, Montréal foi palco do único triunfo de Jean Alesi na F-1, em uma corrida na qual Rubens Barrichello chegou, pela primeira vez na carreira, em segundo lugar. Em 1991, o circuito viu Nelson Piquet levar sua última das 23 vitórias na categoria em seu ano de despedida, pela Benetton, após Nigel Mansell (de Williams) perder a liderança na volta derradeira por causa de um(a) problema elétrico no carro/cagada sua (nunca foi totalmente esclarecido).

A F-1 não pode perder Montréal, e a recíproca é verdadeira. Depois de conhecer o autódromo, meu sonho agora é assistir ao GP do Canadá das arquibancadas do circuito Gilles Villeneuve.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Há 30 anos: uma explosão Heavy Rock (1)

1978 foi um ano transitório para o rock. A queda do progressivo e de bandas de hard rock, dando lugar à simplicidade do punk e da new wave, além da dançante disco music, marcaram a fase 1976-1980 no estilo.

Alguns conseguiram sobreviver por um certo tempo, como o Pink Floyd. Outros resolveram dar um tempo, como Deep Purple e Yes. Mas uma leva de bandas novas, dos dois lados do Atlântico mesclaram diferentes influências do som pesado e revolucionaram o heavy rock.

Esse termo, na verdade, é apenas uma convenção para definir os anos que antecederam à explosão heavy metal, essa sim mais característica.

Nesse primeiro post, abordarei um dos destaques do primeiro semestre de 1978, já marcado por consistenstes lançamentos do heavy rock.

Scorpions - Taken By Force - 4/12/77

1. "Steamrock Fever" (Schenker/Meine) – 3:37
2. "We'll Burn the Sky" (Schenker/Dannemann) – 6:26
3. "I've Got to Be Free" (Roth) – 4:00
4. "The Riot of Your Time" (Schenker/Meine) – 4:09
5. "The Sails of Charon" (Roth) – 5:16
6. "Your Light" (Roth) – 4:31
7. "He's a Woman – She's a Man" (Schenker/Meine/Rarebell) – 3:15
8. "Born to Touch Your Feelings" (Schenker/Meine) – 7:40
Produzido por Dieter Dierks

Tudo bem, começo a série roubando logo de cara. Mas acho que a presença desse disco é essencial para o contexto heavy rock. E como ele saiu em dezembro de 77, quase 78, está incluso. Afinal, muitos o ouviram justamente no primeiro semestre de 78.

"Taken By Force" foi o último disco de estúdio do Scorpions antes da saída do guitarrista Uli Jon Roth. Marcou o fim da fase mais pesada da banda, que namorava com o heavy metal. A partir de "Lovedrive" (1979), as coisas começariam a ficar mais leves, grudentas e cadenciadas.

Dessa maneira, "Taken By Force" é a chance derradeira de ouvir os solos hendrixianos de Roth e sua pegada metal-cavalgante. O trabalho também é um sucessor natural dos clássicos "In Trance" (1975) e "Virgin Killer" (1976). Esses dois discos, respectivamente terceiro e quarto na história da banda, consolidaram o som característico do grupo nessa época. "Taken By Force", por sua vez, solidifica tais particularidades.

Chamo atenção para a capa, mais uma das polêmicas na carreira da banda. Foi censurada em alguns países por conter crianças apontando armas, "brincando" em um cemitério, sendo substituída por uma imagem da banda, sem graça por sinal. Outras capas censuradas da banda foram do "In Trance" (1975), "Virgin Killer" (1976 - essa é de extremo mal gosto, um dia posto sobre a história dela) e "Lovedrive".

O grande destaque do disco é a fantástica "He's a Woman, She's a Man", talvez o maior clássico da banda nessa primeira fase e que foi regravada pelos compatriotas do Helloween 20 anos depois. O peso e a velocidade, aliadas à letra bizarra, típica da banda, além das cavalgadas e do riff repetitivo, são as principais marcas da canção. Ela é realmente poderosa, principalmente ao vivo. Também chama a atenção o início fulminante da faixa e os gritos (de desespero?) do vocalista Klaus Meine, além de uma linha melódica vocal cheia de variações, beirando o desafinado. No refrão, no entanto, a coesão entre os integrantes "coloca tudo no lugar". A temática "traveca" é muito ousada, mesmo parecendo escrachada.

No mesmo estilo, está a faixa de abertura, "Steamrock Fever", cujas características são bem semelhantes a "He's a Woman, She's a Man", além do som de uma britadeira acompanhando a levada da bateria durante a música. Inserções de público e backing vocals também criam o clima de uma apresentação ao vivo, o que encorpa a canção.

Com uma pegada mais setentista aparecem "I've Got to be Free", "The Sails of Charon" e "The Riot of Your Time", que não têm a mesma consistência das duas faixas já citadas, mas garantem a solidez do álbum. As duas primeiras são composições de Roth, e "The Riot of Your Time" é da parceria Rudolf Schenker/Klaus Meine. Sem tanto brilho, mas com qualidade. São mais cadenciadas e repetitivas, mantendo o peso.

Uma das faixas que se destaca como diferente é "Your Light" (também de Roth), muito agradável, que alterna momentos mais sutis, com guitarras "limpas", e trechos pesados, cheios de distorção. Meine também alterna seu estilo de cantar, variando a pegada vocal ao longo dos quatro minutos e meio de música.

A balada é a última canção, "Born to Touch Your Feelings". Não é brilhante como as baladas posteriores do Scorpions, mas importante no desenvolvimento da banda com esse tipo de canção. De qualquer maneira, uma certa influência de Queen (antigo) e bandas mais progressivas também aparecem. O problema é a duração, com mais de sete minutos, o que cansa um pouco quem ouve. Na fase pop, a banda se deu melhor com as baladas, tanto na composição quanto no sucesso comercial.

Deixo por último "We'll Burn the Sky", segunda faixa do álbum. Para mim, esse é um ponto de virada na banda. Pela primeira vez em sua carreira, o Scorpions acerta a mão de verdade em uma música na qual caminha em diversos estilos. Ela começa balada, vira uma espécie de reggae acelerado, bem pontuado pela guitarra de Uli Jon Roth (e a bateria de Herman Rarebell), retorna aos arpeggios do início, chega aos solos e termina de forma explosiva. Principalmente na última estrofe da letra, romântica e psicodélica ao mesmo tempo.

I know we've never been apart
Your love sets fire to my heart
We'll burn the sky, when it's time for me to die
We'll burn the sky

A letra é bela, por sinal, apesar do inglês limitado. Não da banda, neste caso. A música foi escrita por Monika Dannemann, última namorada de Jimi Hendrix antes de sua morte, da qual, inclusive, foi considerada suspeita. O suposto suicídio de Monika, em 1996, também envolve circunstâncias obscuras. De qualquer maneira, ela era namorada de Uli Jon Roth em 1978 e colaborou com o guitarrista na época.

Aliás, eu acabei de descobrir tudo isso, depois que li que tinha sido "um tal de Dannemann" que tinha sido autor da letra. Bizarro, como muitas coisas que envolvem o Scorpions. Toda a parte musical de "We'll Burn the Sky", no entanto, foi elaborada pelo guitarrista Rudolf Schenker, e não por Roth.

No final das contas, acho que "We'll Burn the Sky" é a melhor composição da história da banda. Mais completa, pelo menos.

Os pontos altos de "Taken by Force" consolidaram o peso na carreira do Scorpions, apesar de o grupo resolver mudar o direcionamento a partir do álbum seguinte. A coesão dos integrantes dessa formação, pela última vez, ajudou a reforçar a identidade da primeira banda alemã que chegou ao status de sucesso na história do rock.

No próximo "Há 30 anos", mais uma pérola do heavy rock, ainda não escolhida.

As efemérides do rock

Efeméride - segundo o dicionário Michaelis - comemoração de um fato, geralmente auspicioso

Bom, usarei de efemérides para criar uma seção que há muito tempo venho pensando. Para criar um padrão de análise de discos históricos do rock 'n roll, escolhi aqueles que estejam fazendo aniversário. Dessa maneira, aproveitarei-me de álbuns que celebrem 5, 10, 15, 30 anos, e por aí vai, para saciar essa vontade de escrever.

Deixo claro, desde o início, que a intenção não é de fazer resenhas sobre discos clássicos do rock. Abordarei cada álbum com critérios diferentes. A idéia é destacar a importância da obra para o estilo, ou para a banda, ou até mesmo colocar em evidência alguma peça não tão reconhecida.

Também apontarei discos onde o brilho é ausente, aqueles que decepcionaram ou mudaram o curso de bandas. Ou mesmo agrupar uma série de obras semelhantes, que ajudaram a moldar um estilo ou apontaram a decadência do mesmo.

Ou seja, a idéia é de não ter regras, apenas seguir os aniversários. Tentarei ser fiel aos meses em que os discos foram lançados, mas sem rigidez quanto a isso.

Assim, a maioria das obras será de 1968, 1873, 1978, 1983 e 1988, com exceções para antes e depois. A seção também não terá um nome fixo nem original, será do tipo "Há xx anos: Sgt. Peppers".

O abuso e a herança maldita


Foto: Agência Estado

A cena de ontem no estádio dos Aflitos, com o zagueiro André Luiz saindo do gramado preso porque foi expulso de campo, certamente é uma das imagens mais lamentáveis do futebol brasileiro neste ano.

Começo o texto dessa forma para atestar o que aconteceu, no final das contas. Como a confusão começou? A partir do momento em que André Luiz foi abordado pela polícia de forma truculenta e, pior, inexplicável.

Como explicar que um jogador expulso, por mais descontrolado que tenha ficado, por pior que seja, por mais que quebre pernas de adversários, saia de um jogo preso? Porque mostrou o dedo para a torcida? O que a polícia tem a ver com isso? Ele será punido na esfera esportiva, de qualquer jeito. E merece tomar um gancho sim por todo seu destempero.

Mas, a partir do momento em que os xerifes agiram, aí não se pode ter sangue de barata. A tenente-celebridade falou um monte sobre o jogador do Botafogo, mas esqueceu de explicar o porquê de ela ter ido abordá-lo. André Luiz já se encaminhava aos vestiários, não precisava da polícia para isso.

E as cenas que se seguiram nos fizeram remeter a um momento bem particular da nossa história, do qual não convivi, mas ouvi e li relatos de parentes, famosos e anônimos. Sim, lembrei da ditadura, onde a definição "abuso de autoridade" não existia. Até porque o governo militar era a encarnação do maior dos abusos de autoridade.

Os policiais alegaram desacato. Que pena que André Luiz não pode simplesmente alegar desrespeito. Mas o show para a torcida, extremamente inflamada, já que o cara que os ofendeu estava ali sendo humilhado na frente de todos, valeu. A saída dele pelo acesso dos torcedores foi quase que um convite ao linchamento. Foi para assustar o jogador. Foi de assustar a todos que assistiam, temendo pelo atleta, pelos torcedores, pelo Bebeto de Freitas e até mesmo pelos policiais que faziam a "escolta".

Muito se falou sobre os culpados. Para mim, o André Luiz é um deles. O Náutico, apenas se for comprovado que o clube teve culpa na história do vestiário trancado. A Federação Pernambucana, pelo mesmo motivo. Aliás, o Náutico se julga inocente de tudo que aconteceu. Creio que seja mesmo, com relação a isso. O problema é quando seu presidente, Maurício Cardoso, saia dando entrevistas dizendo que a polícia fez o certo. Cardoso deu o aval. Mesmo que o Náutico não tenha nenhum poder na segurança pública de PE, esse atestado é temerário. Encoraja os xerifes a fazerem tudo de novo, com o aval do clube de seu estado.

E não há nada que justifique a atitude destes "homens da lei", que trataram um jogador mal-educado e estourado como um bandido perigoso, que acabou de cometer um crime hediondo. Não tem como explicar o fato de o vestiário ficar trancado. Ah, tinham 200 caras do Botafogo na porta? Que saíssem todos, então. Duvido que a intenção dos dirigentes da equipe do Rio seria de que o André Luiz não entrasse e ficasse exposto àquele risco e à violência.

Agora, teremos Sport e Corinthians fazendo o segundo jogo das finais da Copa do Brasil no Recife. Espero que a polícia pernambucana reflita e entenda sua real posição no jogo, que é apenas de oferecer segurança, e não criar tumultos ou showzinhos onde eles não existem. Sem pão e circo da próxima vez, por favor. Aqueles tempos já passaram e que fiquem bem para trás.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tuvucanadá: Mont-Tremblant

Já contei aqui sobre as minhas experiências rock 'n' roll do Canadá. Basicamente, os shows do Rush e do Van Halen.

Agora, relatarei um pouco sobre outras "descobertas" na terra franco-britânica, ou franco-inglesa, ou anglo-francesa, como preferir. Basicamente é uma província francesa chamada Québec, com uma forte veia separatista em relação às províncias britânicas. Os "québécois", naturais da província de Québec, já puderam decidir pela independência por duas vezes, em referendos realizados em 1980 e 1995. Mas, por uma apertada margem de votos, os quebequoenses decidiram contra a separação. Todas as outras nove províncias (e três territórios) canadenses, ressalte, são de origem britânica.

Pela forte influência da colonização francesa, Québec é o lugar mais inusitado e diferente que eu vi enquanto estive lá, nada a ver com a multicultural Toronto, que tem gente do mundo inteiro. Québec City, ou Ville du Québec, ex-capital canadense e atual capital da província, é a cidade mais charmosa que conheci. Apesar de toda essa contextualização, não falarei de Québec Cirty nesse post - deixemos para mais tarde.

Mont-Tremblant

Enquanto Montréal, principal pólo econômico da província de Québec, é uma mistura maluca entre inglês e francês, "québécois" e "canadians", Mont-Tremblant, a 130 km da cidade-sede da Olimpíada de 1976, é um município que sobrevive do inverno e das estações de esqui como atrações turísticas.

Conheci o vilarejo no final do outono, mas cheguei a pegar um dia de neve. Mais ou menos sete graus negativos. A cidade era uma graça, uma Campos do Jordão muito menor, com cerca de 8 mil habitantes. Final de outubro, Mont-Tremblant não tinha turistas e era de um marasmo previsível.



Mas o que eu queria ver mesmo (e fui para lá exclusivamente para isso) era o tal do Circuit Mont-Tremblant. Uma pista de corrida no meio da montanha? Como isso? Sediou corridas de F-1 (1968 e 1970)? Servia uma prova da finada Champ Car no ano passado?


Fui atrás. Saí de Montréal com um pessoal do albergue, pegamos o metrô até uma cidade vizinha chamada St. Jêrome (parada final de uma das linhas do metrô de Montréal) e de lá a solução era um ônibus até Mont-Tremblant. Tudo isso por CAD$ 10, em vez dos CAD$ 25 que custariam a passagem do ônibus de viagem, direto de Montréal. Demorou uma hora a mais, mas valeu a pena, até pela experiência.

Chegando lá, a primeira coisa (e praticamente a única) que eu queria fazer era conhecer aquele misterioso autódromo. Era pertinho do albergue, andei até lá e fui sacando a entrada do lugar, que mais parecia uma daquelas estradinhas de sítio no interior de São Paulo. Não dava para acreditar que, atrás de um grande lago (que congela no inverno, consta), existia uma pista de corridas.

E a primeira impressão fica mesmo pela entrada, de cascalho e terra. Se não fosse o típico cenário de inverno, parece que estamos rumo a um rodeio. Imagino um circuito como Interlagos ou Montréal com um acesso daqueles. Está certo que o nosso autódromo José Carlos Pace tem entradas problemáticas, mas são várias, pelo menos. Em Mont-Tremblant, só a tal estrada de terra.

Com a entrada fechada, é lógico que eu pulei para ingressar no circuito, já que eu tinha vindo de muito longe, sabia que qualquer um entenderia. Só estava com medo de huskies siberianos ou cachorros são-bernardo me atacarem pela invasão. Para minha sorte, não havia rigorosamente ninguém cuidando do circuito. Nenhuma alma penada.

Daí, fiz a festa, enquanto um amigo belga do albergue (não é trocadilho) me esperava lá fora. Pela primeira vez, tive contato com um cenário diferente do automobilismo. Feito em uma cidade minúscula e no meio da montanha, longe de tudo (a coisa mais perto é Montréal), você nota que a preocupação com o mundo "profissional" da F-1 e do automobilismo em geral é nula.


Um circuito pequeno, uma pista ajeitadinha. Apertada, porém. Ficava imaginando Jackie Stewart, Jochen Rindt, Graham Hill, Denny Hulme e John Surtees, entre outros, acelerando seus bólidos em uma época diferente da F-1. Uma época em que se corria onde era possível. Não pretendo ser saudosista a respeito desses tempos. Mas fica pela constatação do que se tornou um palco de corridas de Grande Prêmio há 40 anos.
A torre de controle, o tal do hospitality center, é tudo no mesmo lugar, aparentemente. Pequeno, mas acho que conseguem fazer tudo caber lá. Afinal, quase nunca o autódromo, reformado recentemente, sedia corridas. A ambulância também estava lá parada, sem ninguém para cuidar.

No meio do traçado, uma construção com os dizeres "Jim Russel Internacional Racing Drivers School". Fiquei pensando que, em uma cidade com 8 mil habitantes, localizada em uma região de população pequena, quantos gostariam de ter aulas com o ilustre Jim Russel. Creio que poucos. Não é à toa que a construção já estava completamente desgastada. Se fosse no Brasil, diriam que está criando dengue. Também me chamou a atenção o nome em inglês, raro em terras franco-canadenses.

O que deixo para o final, no entanto, é o maravilhoso cenário. Um circuito com uma montanha ao fundo, coberta pelo gelo. A pista com nada menos do que rochas em áreas de escape. Um traçado com freqüentes subidas e descidas em meio à montanha.



Me senti em um museu no Circuit Mont-Tremblant. Para alguns, podia ser triste e melancólico. Mas, para falar a verdade, fiquei honrado em conhecer um local que tem história no automobilismo, por mais distante que seja da realidade atual do esporte.

Afinal, por menor que seja a história de Mont-Tremblant na F-1 (e contando todas as suas limitações atuais), o circuito está lá de pé. Jacarepaguá, em uma cidade com 6 milhões de habitantes e com muito mais história na principal categoria do automobilismo, está destruído.

Isso sim é melancólico e triste.


PS: Estive no Rio de Janeiro em novembro de 2006, para cobrir uma etapa da Stock Car em Jacarepaguá pelo Grande Prêmio. O mato cobrindo boa parte do autódromo e o descuido para com o mesmo demonstrava o real "interesse" de a prefeitura preservar o templo. Que, naquela época, já estava destruído para a construção de sedes dos Jogos Pan-Americanos. Parece um fazendão, como mostram as fotos que eu tirei.



PS 2: Escalei uma montanha em Mont-Tremblant nesse mesmo dia (não aquela) e fiquei maravilhado com a beleza do local. Com certeza, esse visual ficará na minha memória em toda a minha vida. A minha foto de boina, que ilustra esse blog, é desse dia.



PS 3: Esse é o quão perto eu cheguei do gigante Mont-Tremblant, após a cansativa escalada.