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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Há 30 anos: Permanent Waves


"Begin the day with a friendly voice..."

Pequena intro

Lembro muito bem a primeira vez que ouvi "The Spirit of Radio". Em 2000, estava no Guarujá com meu primo e decidi comprar um disco do Rush, que eu conhecia pouca coisa - alguns hits e um pouco dos álbuns "Fly by Night" (1974) e "Presto" (1989). Comprei o "Retrospective vol. 1" (1997), que abria logo com essa música.

Ela me chamou muito mais a atenção do que as outras, das quais não gostei tanto. Virei fã mesmo do Rush em 2002, naquele show no Morumbi, quando descobri o que existia por trás daqueles trio de nerds com aparência de que apanhavam na escola. A sint0nia com o público, a precisão e sentimento em cada nota, acorde... os caras eram muito especiais, apesar do meu porre homérico daquela noite.

Estava eu deitado nas arquibancadas do Morumbi, buscando forças para melhorar, e aquela introdução me levantou. De repente, estava mais sóbrio do que padre em dia de missa. Embromava aquela letra difícil, mas poética, que tinha trechos como "one likes to believe in the freedom of music", frase que estabeleci como lema para a vida.

Saí de lá já pensando em quais discos comprar para iniciar minha coleção - até então, só tinha os dois "Retrospective". Os primeiros foram os ao vivo "Exit... Stage Left" (1981) e "All the World's a Stage" (1976). Depois, veio "2112" (1976) e, finalmente, "Permanent Waves" (1980).

Desde então, é minha banda favorita.

O disco

Rush - Permanent Waves - 01/01/1980


Qualquer disco que comece com "The Spirit of Radio" empolga, mas nesse eles se superaram. Após toda a complexidade de "Hemispheres" (1978), "Waves" deixou tudo mais simples. Duas canções bem para cima ("Spirit" e "Freewill") anunciavam o início da positiva década de 80 - o álbum foi lançado, simbolicamente, em 1 de janeiro de 1980.

A homenagem à música feita na primeira música se transforma em um hino pelo livre-arbítrio na segunda. "Freewill" tem um dos melhores solos da carreira de Alex Lifeson, que trouxe mais melodia em "Waves" - característica ainda mais clara no disco seguinte, o clássico "Moving Pictures" (1981).

Além de escrever a letra e transformar a bateria quase em um instrumento melódico que duela com guitarra, baixo e teclado, Neil Peart faz questão de buscar uma levada independente em "Freewill".

"Jacob's Ladder" fecha o lado A de forma um pouco sombria e dá mais ênfase às passagens instrumentais, mais curtas nesse disco do que nos anteriores. Mesmo assim, uma sequência rítmica quase impossível de decorar, no meio da canção, mostra o Rush ainda buscando o próprio limite da virtuose musical, sempre com bom gosto.

O lado B começa leve, com a romântica "Entre Nous" e a sutil "Different Strings", que tem no piano Hugh Syme, o artista que elaborou quase todas as capas do Rush. Apesar de "Entre Nous" ser quase uma canção de amor, ela também traz o lado individualista de Peart ao pedir que o casal da história fique junto, mas resguarde sempre suas próprias vidas e personalidades. A música ganhou importância na história da banda quando apareceu ao vivo, pela primeira vez, em 2007, nos set lists da turnê "Snakes and Arrows".

"Natural Science" encerra o disco retomando os temas longos e complexos dos álbuns anteriores, mas com um pé na modernidade. Ela também tem menos solos do que se pode esperar de uma música de dez minutos no Rush, sendo bem equilibrada nesse sentido. Não à toa, virou um clássico e não sai dos shows desde meados da década de 90.

Na arte da capa, destaque para o jornal com a (hoje apagada) inscrição "Dewey Defeats Truman", manchete do Chicago Tribune em 03/11/1948. Naquele ano, o democrata Harry Truman derrubou os primeiros prognósticos e venceu a eleição para presidente dos EUA. O jornal, por sua vez, se deu mal ao publicar a notícias antes da hora, apostando no republicano Thomas Dewey.

Na capa original, parecia uma alusão aos erros humanos e às mudanças repentinas - temas recorrentes em "Waves", cujo título aparentemente contraditório ("Ondas permanentes") já brinca com essa relação. O Rush, no entanto, recuou e retirou a manchete da imagem do álbum, criada pelo já citado Hugh Syme.

O fato de "Permanent Waves" ter sido lançado justamente no primeiro dia dos anos 80 também é muito simbólico. Afinal, nada como iniciar uma nova década com um disco repleto de novidades e levemente influenciado por elementos do reggae e da new wave, bem mais escancarados a partir de "Signals" (1982). O trio se desgarra um pouco dos anos 70 e entra de cabeça na nova era - o disco é a ponte entre os dois períodos.

Por ser um disco de transição também entre o complexo e o simples, "Permanent Waves" funciona como "um pouquinho de tudo" da carreira do Rush, apesar de conter apenas seis músicas. O que poderia indicar falta de foco, no entanto, demonstra apenas a evolução do trio, que não abandonou as raízes dos anos 70.

E o Rush evolui com maestria, principalmente em "The Spirit of Radio" - que não sintetiza apenas "Waves", mas todo o rico universo musical dos canadenses.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tuvuca e sua vitrola chegam a 2010

É difícil iniciar 2010 com um texto positivo, depois de tantas desgraças naturais, impulsionadas por políticos desgraçados, atingindo nosso país. Mas, inspirado pela sempre bem-vinda nostalgia, tentarei.

Para isso, falarei da minha maior paixão. Como diz a minha biografia no Twitter, sou jornalista, mas o que importa mesmo é o Rock 'n' Roll. Cito a frase dita pelos automobilistas "life is racing, the rest is just waiting" e troco o "racing" por "rock 'n' roll". Afinal, tudo gira em torno de quanto dinheiro ganhar para ver quantos discos é possível comprar.

Sim, discos, e não cds. Sem querer menosprezar o cada vez mais esquecido compact disc, a minha vitrola, que eu ganhei de Natal da pessoa mais especial, a única que pensaria nesse presente perfeito, fez com que 2010 começasse de um jeito bem diferente. Não mais perderei tantas horas em lojas como a Fnac. Sebos do centro, aqui vou eu!

Já comprei algumas coisas novas, juntei as velhas aquisições familiares com as minhas e já ouvi um monte de bolacha, virando para o lado B sempre que o A acaba. É gostoso demais. Você consegue ver a música girando, fazendo o trajeto vinil-agulha-vitrola-caixa de som. É muito diferente. É muito melhor. E muito mais real.

Eu não tinha uma vitrola decente há uns dez anos, quando a de casa pifou de vez. Meu pai tentou arranjar outra, mas que nunca funcionou de verdade. A nova, no entanto, é especial.

É da Philips, e vira uma maleta para levar para qualquer lugar. A tampa se transforma nas caixas de som. Imagino que tenha sido o primeiro walkman de verdade - afinal, dá pra ligar até com pilha.

Dois dias antes de ganhar a vitrola, fui na galeria fazer compras de Natal para mim mesmo. E vi o vinil do "Permanent Waves', do Rush, por R$ 15. Levei e pensei "vou comprar um disco do Rush por mês até completar a coleção" (que já está completa em cd, diga-se). Parecia uma premonição.

Falarei mais do Permanent Waves em um futuro post, que resgatará a esquecida seção "Efemérides do Rock" - essa deverá ter novos capítulos em 2010. Por enquanto, continuo encantado com a vitrola.

Ela fechou um ano brilhante para mim no que diz respeito a Rock 'n' Roll. Foram os melhores shows que eu assisti do Iron Maiden (no Rio e em SP, que me inspiraram um dos melhores textos que já escrevi, na minha opinião) e do Kiss (o outro foi o de 1999). Também foi a primeira vez que eu presenciei Heaven and Hell (sensacional), Faith no More (também) e, principalmente, o AC/DC, que merece um futuro capítulo à parte.

Aliás, depois do AC/DC, eu fechei a série de bandas que eu realmente precisava ver ao vivo. E será difícil ver algo melhor do que Brian Johnson, Angus Young e os outros três. Mas continuarei indo atrás dos dinassouros em estádios e casas de show.

E, quando voltar para casa, ouvirei os discos na vitrola lembrando de 2009, um ano marcado pelas boas recordações de Rock 'n' Roll.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Reunited


Não sou o maior dos fãs do Faith No More, mas considero o álbum "The Real Thing" o melhor disco de rock dos anos 90 -apesar de ele ter sido lançado em 1989, representou uma injeção de ânimo no estilo e abriu caminho para novas (para mim, ruins) vertentes, como o new metal. Ainda vou fazer um post, esse ano, lembrando os 20 anos do lançamento (tenho no blog aquela seção esquecida das "efemérides do rock").

Apenas por isso, a reunião da banda com quase todos os integrantes de "The Real Thing" -a exceção é o guitarrista- foi uma das melhores notícias recentes no rock 'n' roll. Fizeram os primeiros shows na semana passada, e eles já estão completos no YouTube (quanta modernidade!).

O vocalista Mike Patton não é o mesmo do início da década de 1990, mas tem uma ótima e louca performance, entrando com uma bengala no palco, e pulando, gritando, urrando, e até cantando, o tempo inteiro. O setlist, por sua vez, é sensacional.

Todos eles, tirando o batera Mike Bordin, vestem ternos, e mantêm o aspecto comédia da banda. Para começar o show, em vez de um hit pesadão, como "From Out of Nowhere" e "Falling to Pieces", resolvem lançar um cover de uma baladinha romântica, que nunca haviam gravado, com o sugestivo nome de "Reunited" (hit de 1979 da dupla soul Peaches & Herb). A letra conta a história de um casal todo feliz e apaixonado com a volta de seu romance, após um tempo separado.

Eu achei a sacada sensacional. É totalmente anti-clímax abrir o show tocando uma música que quase ninguém conhece e que não tem nada a ver com a banda. Mas, assim, celebram a própria reunião, com aquela cara canastrona que não se pode levar a sério. É só ver o vídeo.

É bom saber que os caras voltaram de bom humor, que sempre marcou esse que é um dos grupos mais originais e criativos do hard rock/heavy metal da segunda metade da década de 1980. Foram ao topo nos anos seguintes, mas cansaram dessa vida há 11 anos.

Agora, voltaram, e que essa reunião renda ótimos frutos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Wright, por Waters

Há uma semana, mais ou menos, surgiu a primeira declaração de Roger Waters sobre o ex-parceiro Rick Wright após sua morte por conta de um câncer, no começo do mês. Claro que eu li com muita curiosidade, pois, infelizmente, nada melhor do que uma morte para suavizar as palavras.

Em outros termos, somente este período pós-tragédia envolvendo Wright permite a Waters admitir sua admiração pelo ex-companheiro, com quem teve diversos problemas e polêmicas.

Segue a tradução da declaração de Waters, publicada pelo Whiplash!

"Eu fiquei muito triste em saber da morte prematura de Rick. Eu sabia que ele estava doente, mas o final veio de forma repentina e chocante. Meus sentimentos estão com a família dele, particularmente com (seus filhos) Jamie e Gala e com a mãe deles, Juliet, a quem eu conheci muito bem nos velhos dias, e sempre gostei e admirei muito."

"Quanto ao homem e a seu trabalho, é difícil superar a importância da sua musicalidade no Pink Floyd dos anos 60 e 70. A sua intrigante influência do jazz, modulações e timbres tão familiares em 'Us and Them' e em 'Great Gig in the Sky,' o que deu a essas composições tanto sua extraordinariedade e humanidade e sua majestade, são onipresentes em todo o trabalho colaborativo que nós quatro realizamos naquela época. A percepção de Rick para as progressões harmônicas era nosso fundamento".

"Eu me sinto extremamente grato pela oportunidade que o Live 8 me proporcionou ao me reunir com ele, com David (Gilmour) e com Nick (Mason) por uma última vez. Eu queria que tivesse havido mais vezes."

"A percepção de Rick para as progressões harmônicas era nosso fundamento". Muito humilde, ainda mais quando nos referimos a Roger Waters. Ele ainda lamenta que o Pink Floyd não se reuniu mais, além do "one night only" no Live 8, mas isso aconteceu por conta do desinteresse de David Gilmour. E, infelizmente, ag0ra não tem mais jeito.

Ninguém melhor do que um Waters desprovido de ressentimento (e frustrado pela separação eterna do Floyd depois do "The Wall") para falar sobre Richard Wright, com quem fundou a banda ao lado de Syd Barret.

Como eu disse no meu post em homenagem ao tecladista, talvez ele receba, neste curto período pós-morte, o reconhecimento por toda sua obra na banda e no rock 'n' roll.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Há 30 anos: Uma explosão australiana (1)

Australiana, marromeno. Angus e Malcom Young, além do vocalista Bon Scott, são escoceses que migraram para a Austrália. Mas montaram a banda em Sydney, isso é fato, o que faz deles australianos também.

O caso do AC/DC no "Há 30 anos" é um pouco diferente em relação ao do Judas e do Scorpions, porque vou postar sobre dois discos. Ambos foram lançados em 1978 e fizeram história. Naquela época, a banda vinha de uma escalada de sucessos que culminou com Let There Be Rock (1977), seu melhor disco até então, na visão deste blogueiro.

Consistente e recheado de clássicos (Whole Lotta Rosie, Let There Be Rock, Hell Ain't a Bad Place to Be, Problem Child), o terceiro álbum de estúdio da banda (quarto na Austrália) é daqueles de alavancar carreiras ao estrelato.

Mas falaremos das obras de 1978, Powerage (agora) e If You Want Blood You've Got It (daqui a algum tempo - espero que não seja longo).

AC/DC -Powerage - 25/05/2008



1. "Rock 'n' Roll Damnation" – 3:37
2. "Down Payment Blues" – 6:03
3. "Gimme a Bullet" – 3:21
4. "Riff Raff" – 5:11
5. "Sin City" – 4:45
6. "What's Next to the Moon" – 3:31
7. "Gone Shootin'" – 5:05
8. "Up to My Neck in You" – 4:13
9. "Kicked in the Teeth" – 4:03


Powerage pode não conter tantos hits em relação a Let There Be Rock, mas é tão consistente quanto. Um disco feito inteiramente de boas músicas, sem exceção, e alguns momentos brilhantes.

Começando pela chamativa e famosa capa. A imagem de Angus Young sendo "eletrocutado" é uma das mais marcantes da história da banda e ilustra com perfeição toda a energia exalada pelo AC/DC em seus shows (e pelo guitarrista também).

A abertura com Rock 'n' Roll Damnation é empolgante, denunciando o que vem a seguir nos próximos 40 minutos de música. O AC/DC não tenta nenhuma modificação ousada em seu som, pelo contrário. Volta a fazer em Powerage tudo aquilo que consagrou a banda nos discos anteriores: um blues acelerado com guitarras pesadas, encostando no heavy metal. Uma junção suja de Hard Rock, Heavy Metal, Rock 'n' Roll e Blues.

Down Payment Blues tem uma ótima letra, relatando a simplicidade e o desleixo, dois símbolos do grupo. Logo no início, Bon Scott canta you know I ain't doing much/doing nothing means a lot to me ("sei que não estou fazendo muito/não fazer nada significa muito para mim"), que cai bem para descrever quem sempre reverenciou o simples e ignorou o complexo.

Já a terceira faixa, Gimme a Bullet, assim como What's Next to the Moon (e Cold Hearted Man que só aparece em versões européias de Powerage), é apenas uma ótima música, que compõe o disco e não produz nenhum destaque específico.

Sin City, que também chegou a ser executada ao vivo com Brian Johnson, fala sobre Las Vegas ou qualquer cidade que tenha cassinos, mulheres e bebidas em geral. Um clássico. Vale prestar a atenção na letra, como é habitual quando se refere a Bon Scott.

O final do lado B, com Gone Shootin (conheci essa na trilha sonora do filme do Beavis and Butthead, que eu tenho até hoje), Up to me Neck in You e Kicked in the Teeth é um chute nos dentes, literalmente, cheio de energia. Começando com o groove da primeira, totalmente blues, passando pela simplicidade da segunda e chegando até a zeppeliana música final, que começa com um monólogo do vocalista e vai crescendo de acordo com a letra da canção. Um final perfeito para Powerage.

Riff Raff, por sua vez, ficou por último por ser uma das melhores composições da história da banda, e a grande canção de Powerage, ainda mais depois de virar música-abertura da turnê do álbum. Acabou imortalizada como primeira faixa do clássico If You Want Blood You've Got It, que ainda receberá destaque maior neste blog.

O nome da música é bem propício por contar com um dos marcantes riffs dos irmãos Young. É um blues bem acelerado, uma mistura de Kiss, Grand Funk Railroad e Led Zeppelin, mal comparando. O refrão, berrado por Scott, é marcante, fácil de cantar e com um interessante jogo de palavras. Já o solo de Angus é inspiradíssimo, com uma cozinha ritmada, quase que como uma big band do rock 'n' roll.

Aliás, se um dia eu fizer um top 10 com as melhores guitarras em canções, tenho certeza de que Riff Raff estará na lista.

Os últimos versos da música definem não apenas o disco, mas a banda inteira. Parece um recado do AC/DC para o mundo.

I never shot nobody, don't even carry a gun
I ain't done nothing wrong, I'm just having fun
Riff Raff
It's good for a laugh
Riff Raff
Go on and laugh yourself in half

Em pleno 1978, com explosão punk e tudo mais, o AC/DC queria lembrar a todo mundo que o rock 'n' roll é, antes de tudo, diversão.

PS: Fica aqui o registro de um ótimo review sobre o disco, produzido pelo site Stilus e escrito por Edwin Faust (em inglês). É uma visão diferente e muito mais aprofundada do que a minha, com uma completa análise das letras e contextualizando o período vivido por Bon Scott na época.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

The Great Wright in the Sky


No último dia 15, foi-se Richard Wright, tecladista e um dos fundadores do Pink Floyd. Wright, sumido da mídia há algum tempo, padeceu de um câncer, em uma batalha curta, de acordo com informações de um porta-voz do músico.

Agora, mais de 40 anos após ter integrado uma das maiores bandas do Rock 'n' Roll de todos os tempos e que produziu uma obra de arte chamada The Dark Side of the Moon (1973), Rick Wright parece receber um pouco da atenção que mereceu durante todo esse tempo. Tanto de ex-membros da banda quanto da imprensa e da crítica em geral, incluindo a mídia especializada.

Digo isso porque sempre senti Wright como um dos músicos mais injustiçados e subestimados do rock, algo que aconteceu também porque este virou diminuto diante da imponência de Roger Waters no início dos anos 70 e da liderança de David Gilmour na década seguinte.

A saga de Wright no Pink Floyd se divide em três períodos: o início da banda, entre 1966 e 1975, da qual participu ativamente como compositor; o “ostracismo”, entre 1976 e 1983, quando chegou a ser demitido por Roger Waters e recontratado como músico de estúdio, além de ficar longe das composições da banda; e a fase coadjuvante, na nova encarnação do Floyd (sem Waters e com Gilmour liderando), que resultou nos álbuns A Momentary Lapse of Reason (1987) e The Division Bell (1994), época em que apenas figurou ao lado de Nick Mason em algo que pode ser chamado de “projeto solo” de David Gilmour.

Essa diminuição da importância do tecladista a partir de 1976 é, na minha opinião, inexplicável. As linhas de teclado de Wright ajudaram a compor a psicodelia comandada pelo ex-vocalista e guitarrista Syd Barret nos primeiros discos da banda. Nessa época, Wright também atuava nos vocais, geralmente fazendo backing.

Em Atom Heart Mother (aka “o disco da vaca, de 1970), Rick compôs, sozinho, o que é para mim a melhor canção daquele álbum: "Summer of ‘68". A música, que alterna momentos psicodélicos (herança do início da banda) com a sutileza de uma verdadeira balada, é até hoje (não sei exatamente o porquê) executada nas rádios brasileiras, mas totalmente esquecida pela banda. Não figura, por exemplo, na excelente coletânea Echoes (2001), e aparentemente nunca foi tocada ao vivo (até onde pesquisei, pelo menos).

No álbum seguinte, Meddle (1971), foi co-autor das duas músicas mais destacadas da obra: "One of these Days" e "Echoes", ambas compostas pelos quatro integrantes em parceria. Na segunda, Wright dividiu as linhas vocais com David Gilmour com maestria, em um belíssimo dueto, que voltaria a se juntar em "Time" e "Breathe" no disco seguinte, o já citado "The Dark Side of the Moon".

Foi nele que o tecladista compôs sua obra-prima, chamada "The Great Gig in the Sky", a qual este blog faz um trocadilho no título do post. Lá, Wright demonstrou toda sua técnica, auxiliada pelo histórico e emocionante solo da cantora Clare Torry, em uma música instrumental co-escrita por Roger Waters. O clássico "Us And Them" também surgiu da hoje inusitada dupla Waters/Wright.

Daí pra frente, ele foi deixado de lado, ou se deixou de lado, e viu Roger Waters assumiu a liderança do grupo. Brigou com o baixista, acusando-o de ditador, e este replicou dizendo que Wright simplesmente "não estava nem aí" para a banda. Estes atritos causaram a saída do tecladista (ou sua demissão) durante as gravações de "The Wall" (1979), onde foi creditado como músico convidado, voltando depois para a turnê da opéra-rock. Wright não participou do álbum-solo-de-Waters-com-o-nome-de-Pink-Floyd "The Final Cut" (1983).

O tecladista voltaria para o projeto Gilmour, que também incluiu o baterista Nick Mason, e co-escreveu cinco músicas em "The Division Bell" ("Cluster One", "What Do You Want From Me", "Marooned", "Wearing the Inside Out" e "Keep Talking"), nenhuma com o brilho de antes.

Richard William Wright, leonino, nascido em 1943, fez tudo isso pelo Pink Floyd, uma das bandas de rock que mais rompeu o universo da música para atingir outras formas artísticas, como cinema ("The Wall", o filme), artes plásticas (as capas dos discos) e teatro (a turnê de "The Wall").

No aspecto pessoal, suas linhas simples e marcantes me fizeram querer tocar teclado quando eu tinha 13 anos. Não consegui aprender praticamente nada, mas não esqueço daquele sentimento de moleque que me fascinava pela inteligência e concisão, algo que foi irradiado por todos os integrantes do Pink Floyd. Para mim, a criatividade de David Gilmour é a exceção. O Pink Floyd ensinou às bandas de rock como fazer do simples genial. E Wright, como já disse, é um símbolo disto tudo.

Além de esgotar as chances de a banda se reunir, já que seu membro menos carrancudo e mais animado se foi, a morte de Rick Wright o imortaliza como um coadjuvante em uma história na qual começou como um dos protagonistas. E sua trajetória declinante, aparentemente, nunca será esclarecida.

Agora, quem sabe, ele não receba o mérito do qual é de seu direito - um músico essencial para o Pink Floyd virar o que virou.

domingo, 13 de julho de 2008

Parabéns

23 anos de Live Aid, realizado em 13 de julho de 1985, dia em que foi decretado o Dia Mundial do Rock.

Este blog, a quase um mês sem postar nada, deseja um feliz aniversário ao Rock 'n' Roll.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Há 30 anos: Uma explosão Heavy Rock (2)

Como já escrevi no post inicial sobre a tal explosão heavy rock, 1978 foi um ano confuso e de transição para o rock 'n' roll. E uma das coisas mais curiosas é que muitas bandas hard rock resolveriam partir para o pop no início da década de 1980, mas outras investiram cada vez mais no peso.

Isso aconteceu com o Judas Priest, a quem considero o primeiro grupo que buscou o heavy metal. O heavy metal que digo é aquele que conhecemos hoje, caracterizado pelo som pesado, rápido (às vezes nem tanto), "cavalgado" e geralmente acompanhado de um visual agressivo dos membros da banda - assunto que teve forte colaboração do Judas, que imortalizou o couro e o transformou em um item quase obrigatório no guarda-roupa metaleiro.

Na verdade, penso que o Black Sabbath é o maior pioneiro heavy metal, mas o próprio Ozzy discorda desse termo. Para ele, o Sabbath é uma banda de heavy rock. Mesmo criando a base sonora (e também visual) do estilo, o Sabbath mostrou sempre deixou claro suas origens e influências, que vinham até do blues. O Judas Priest, apesar de seu primeiro álbum, já "nasceu" heavy metal. O Sabbath mostrou o caminho que deveria ser seguido, e o Judas foi lá e seguiu.

Agora vamos para o álbum que, para mim, mudou a história da banda. E, para mim, é o melhor dentre os que eu classifiquei na "explosão heavy rock".

Judas Priest - Stained Class - 10/2/78

1. "Exciter" – 5:34
2. "White Heat, Red Hot" (Tipton) – 4:20
3. "Better By You, Better Than Me" (Gary Wright) – 3:24
4. "Stained Class" – 5:19
5. "Invader" (Halford, Tipton, Ian Hill) – 4:12
6. "Saints in Hell" (Halford, K.K. Downing, Tipton) – 5:30
7. "Savage" (Halford, Downing) – 3:27
8. "Beyond the Realms of Death" (Halford, Les Binks) – 6:53
9. "Heroes End" (Tipton) – 5:01

Produzido por Dennis Mackay

"Stained Class" foi o primeiro tiro certo do Judas no heavy metal. Após um primeiro disco confuso, sem direção e mal produzido ("Rocka Rolla", de 1974), os caras começaram a achar o caminho com "Sad Wings of Destiny" (1976), também porcamente produzido mas coeso e com os clássicos "Victim of Changes", "The Ripper", "Genocide" e "Tyrant". "Sin After Sin" (1977), com produção de Roger Glover (baixista do Deep Purple), trouxe mais peso em praticamente todas as faixas.

Mas a abertura de "Stained Class" já demonstra como o grupo acertou a mão neste álbum. "Exciter", com dois bumbos, velocidade, agudos de Rob Halford, letras agressivas, duelos e solos de guitarra e ótimas viradas de bateria, graças a Les Binks, que estreou no banquinho naquele disco e deu saudades quando saiu, em 1980, para dar lugar ao famigerado Dave Holland.

"White Heat, Red Hot" e o cover "Better By You, Better Than Me" são ótimas canções, com bons refrões, e que mantém a evolução do álbum. Já a faixa-título é outro grande destaque pela base "cavalgada", os vocais sobe-e-desce de Halford e novamente pelo trabalho das guitarras.

"Invader" e "Savage" são os tradicionais "fillers", para segurar a barra no disco. A faixa final "Heroes End" traz o Judas de volta ao início da carreira, mais hard rock e com um estilo levemente exótico, até na performance única de Halford.

O destaque final é "Beyond the Realms of Death", penúltima canção, que não é uma das minhas favoritas mas inegavelmente impera como um dos maiores clássicos do grupo. É o mais próximo que "Stained Class" chega de uma balada, algo até raro na carreira inteira do Judas, que sempre se meteu a compor canções lentas, cuja qualidade varia. É sem dúvida uma letra interessante, um pouco sabbathiana, cujo tema é suicídio.

O desempenho de Halford novamente chama a atenção pela emoção com a qual o vocalista carrega a música, interpretando o enredo da canção. A ponte entre o trecho lento e o rápido também convence, e quem dá show mesmo é Glenn Tipton. Na minha opinião, Tipton sempre teve mais apelo melódico (e talento) nos solos do que o parceiro KK Downing, mas isso fica escancarado no melhor momento de "Beyond the Realms of Death", que é justamente o solo emocionante de Tipton, um de seus preferidos. Muita gente diz que "Beyond the Realms of Death" é a "Stairway to Heaven" do Judas. Como as duas são clássicos de suas respectivas bandas, variam entre guitarras pesadas e acústicas e com excelentes solos, acho que essas pessoas têm razão. Aliás, "Stairway to Heaven" nunca foi uma de minhas favoritas do Led Zeppelin...

"Stained Class" mostrou ao mundo que o Judas Priest falava sério, apesar da postura exótica e agressiva do grupo. Soube incorporar um pouco do visual punk no heavy metal, fundamental para estabelecer o estilo "maltrapilho". Além das excelentes músicas, o disco mostrou uma consistência inédita para a banda, importantíssima para que o Judas Priest definisse sua identidade e, seguindo os passos do Black Sabbath, criasse os alicerces do heavy metal.

"Stained Class" também ficou à frente de discos semelhantes da época por conta de seu foco direcionado à elaboração das canções pesadas, e influenciou praticamente todas as bandas de heavy metal que apareceram nos anos seguintes. O fato de ter conseguido relativo sucesso também mostrou o estilo como viável e deu confiança à banda para continuar com sua identidade e investindo nas composições diferentes.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Há 30 anos: uma explosão Heavy Rock (1)

1978 foi um ano transitório para o rock. A queda do progressivo e de bandas de hard rock, dando lugar à simplicidade do punk e da new wave, além da dançante disco music, marcaram a fase 1976-1980 no estilo.

Alguns conseguiram sobreviver por um certo tempo, como o Pink Floyd. Outros resolveram dar um tempo, como Deep Purple e Yes. Mas uma leva de bandas novas, dos dois lados do Atlântico mesclaram diferentes influências do som pesado e revolucionaram o heavy rock.

Esse termo, na verdade, é apenas uma convenção para definir os anos que antecederam à explosão heavy metal, essa sim mais característica.

Nesse primeiro post, abordarei um dos destaques do primeiro semestre de 1978, já marcado por consistenstes lançamentos do heavy rock.

Scorpions - Taken By Force - 4/12/77

1. "Steamrock Fever" (Schenker/Meine) – 3:37
2. "We'll Burn the Sky" (Schenker/Dannemann) – 6:26
3. "I've Got to Be Free" (Roth) – 4:00
4. "The Riot of Your Time" (Schenker/Meine) – 4:09
5. "The Sails of Charon" (Roth) – 5:16
6. "Your Light" (Roth) – 4:31
7. "He's a Woman – She's a Man" (Schenker/Meine/Rarebell) – 3:15
8. "Born to Touch Your Feelings" (Schenker/Meine) – 7:40
Produzido por Dieter Dierks

Tudo bem, começo a série roubando logo de cara. Mas acho que a presença desse disco é essencial para o contexto heavy rock. E como ele saiu em dezembro de 77, quase 78, está incluso. Afinal, muitos o ouviram justamente no primeiro semestre de 78.

"Taken By Force" foi o último disco de estúdio do Scorpions antes da saída do guitarrista Uli Jon Roth. Marcou o fim da fase mais pesada da banda, que namorava com o heavy metal. A partir de "Lovedrive" (1979), as coisas começariam a ficar mais leves, grudentas e cadenciadas.

Dessa maneira, "Taken By Force" é a chance derradeira de ouvir os solos hendrixianos de Roth e sua pegada metal-cavalgante. O trabalho também é um sucessor natural dos clássicos "In Trance" (1975) e "Virgin Killer" (1976). Esses dois discos, respectivamente terceiro e quarto na história da banda, consolidaram o som característico do grupo nessa época. "Taken By Force", por sua vez, solidifica tais particularidades.

Chamo atenção para a capa, mais uma das polêmicas na carreira da banda. Foi censurada em alguns países por conter crianças apontando armas, "brincando" em um cemitério, sendo substituída por uma imagem da banda, sem graça por sinal. Outras capas censuradas da banda foram do "In Trance" (1975), "Virgin Killer" (1976 - essa é de extremo mal gosto, um dia posto sobre a história dela) e "Lovedrive".

O grande destaque do disco é a fantástica "He's a Woman, She's a Man", talvez o maior clássico da banda nessa primeira fase e que foi regravada pelos compatriotas do Helloween 20 anos depois. O peso e a velocidade, aliadas à letra bizarra, típica da banda, além das cavalgadas e do riff repetitivo, são as principais marcas da canção. Ela é realmente poderosa, principalmente ao vivo. Também chama a atenção o início fulminante da faixa e os gritos (de desespero?) do vocalista Klaus Meine, além de uma linha melódica vocal cheia de variações, beirando o desafinado. No refrão, no entanto, a coesão entre os integrantes "coloca tudo no lugar". A temática "traveca" é muito ousada, mesmo parecendo escrachada.

No mesmo estilo, está a faixa de abertura, "Steamrock Fever", cujas características são bem semelhantes a "He's a Woman, She's a Man", além do som de uma britadeira acompanhando a levada da bateria durante a música. Inserções de público e backing vocals também criam o clima de uma apresentação ao vivo, o que encorpa a canção.

Com uma pegada mais setentista aparecem "I've Got to be Free", "The Sails of Charon" e "The Riot of Your Time", que não têm a mesma consistência das duas faixas já citadas, mas garantem a solidez do álbum. As duas primeiras são composições de Roth, e "The Riot of Your Time" é da parceria Rudolf Schenker/Klaus Meine. Sem tanto brilho, mas com qualidade. São mais cadenciadas e repetitivas, mantendo o peso.

Uma das faixas que se destaca como diferente é "Your Light" (também de Roth), muito agradável, que alterna momentos mais sutis, com guitarras "limpas", e trechos pesados, cheios de distorção. Meine também alterna seu estilo de cantar, variando a pegada vocal ao longo dos quatro minutos e meio de música.

A balada é a última canção, "Born to Touch Your Feelings". Não é brilhante como as baladas posteriores do Scorpions, mas importante no desenvolvimento da banda com esse tipo de canção. De qualquer maneira, uma certa influência de Queen (antigo) e bandas mais progressivas também aparecem. O problema é a duração, com mais de sete minutos, o que cansa um pouco quem ouve. Na fase pop, a banda se deu melhor com as baladas, tanto na composição quanto no sucesso comercial.

Deixo por último "We'll Burn the Sky", segunda faixa do álbum. Para mim, esse é um ponto de virada na banda. Pela primeira vez em sua carreira, o Scorpions acerta a mão de verdade em uma música na qual caminha em diversos estilos. Ela começa balada, vira uma espécie de reggae acelerado, bem pontuado pela guitarra de Uli Jon Roth (e a bateria de Herman Rarebell), retorna aos arpeggios do início, chega aos solos e termina de forma explosiva. Principalmente na última estrofe da letra, romântica e psicodélica ao mesmo tempo.

I know we've never been apart
Your love sets fire to my heart
We'll burn the sky, when it's time for me to die
We'll burn the sky

A letra é bela, por sinal, apesar do inglês limitado. Não da banda, neste caso. A música foi escrita por Monika Dannemann, última namorada de Jimi Hendrix antes de sua morte, da qual, inclusive, foi considerada suspeita. O suposto suicídio de Monika, em 1996, também envolve circunstâncias obscuras. De qualquer maneira, ela era namorada de Uli Jon Roth em 1978 e colaborou com o guitarrista na época.

Aliás, eu acabei de descobrir tudo isso, depois que li que tinha sido "um tal de Dannemann" que tinha sido autor da letra. Bizarro, como muitas coisas que envolvem o Scorpions. Toda a parte musical de "We'll Burn the Sky", no entanto, foi elaborada pelo guitarrista Rudolf Schenker, e não por Roth.

No final das contas, acho que "We'll Burn the Sky" é a melhor composição da história da banda. Mais completa, pelo menos.

Os pontos altos de "Taken by Force" consolidaram o peso na carreira do Scorpions, apesar de o grupo resolver mudar o direcionamento a partir do álbum seguinte. A coesão dos integrantes dessa formação, pela última vez, ajudou a reforçar a identidade da primeira banda alemã que chegou ao status de sucesso na história do rock.

No próximo "Há 30 anos", mais uma pérola do heavy rock, ainda não escolhida.

As efemérides do rock

Efeméride - segundo o dicionário Michaelis - comemoração de um fato, geralmente auspicioso

Bom, usarei de efemérides para criar uma seção que há muito tempo venho pensando. Para criar um padrão de análise de discos históricos do rock 'n roll, escolhi aqueles que estejam fazendo aniversário. Dessa maneira, aproveitarei-me de álbuns que celebrem 5, 10, 15, 30 anos, e por aí vai, para saciar essa vontade de escrever.

Deixo claro, desde o início, que a intenção não é de fazer resenhas sobre discos clássicos do rock. Abordarei cada álbum com critérios diferentes. A idéia é destacar a importância da obra para o estilo, ou para a banda, ou até mesmo colocar em evidência alguma peça não tão reconhecida.

Também apontarei discos onde o brilho é ausente, aqueles que decepcionaram ou mudaram o curso de bandas. Ou mesmo agrupar uma série de obras semelhantes, que ajudaram a moldar um estilo ou apontaram a decadência do mesmo.

Ou seja, a idéia é de não ter regras, apenas seguir os aniversários. Tentarei ser fiel aos meses em que os discos foram lançados, mas sem rigidez quanto a isso.

Assim, a maioria das obras será de 1968, 1873, 1978, 1983 e 1988, com exceções para antes e depois. A seção também não terá um nome fixo nem original, será do tipo "Há xx anos: Sgt. Peppers".

terça-feira, 20 de maio de 2008

Whitesnake em SP

Hoje os posts estão bombando, então vamos embalar. Agora, publico o review sobre o show do Whitesnake, no Credicard Hall, no dia 10 de maio.

Uma sexta-feira típica, de muito trânsito na capital paulista. Parece que bateu o recorde de trânsito de todos os tempos em São Paulo. Mas esses recordes caem toda hora. Aliás, essa marca a megalópole vem batendo com louvor, dia após dia.

Voltando ao show, seria o meu segundo do Whitesnake. O primeiro foi em 2005, quando a banda abriu para o Judas Priest. Com um set curto, acabou sendo apenas um aperitivo para a apresentação completa deste ano.

Lembro que eu tinha 13 anos quando eles vieram em 1997, queria ir no show, mas era moleque demais e acabei perdendo. Conhecia pouca coisa da banda, os hits básicos, mas tinha vontade de saber mais.

Para mim, o David Coverdale é a segunda melhor voz entre os cantores de hard rock clássico. Só perde para o Dio. E o cara mostrou a que veio no Credicard Hall, como escrevi no review para a FOL, que segue abaixo.

PS: De novo, quem me ajudou no show foi o Marcos Borges, tirador de fotos.

David Coverdale traz Whitesnake e anos 80 de volta no Credicard Hall

MARCELO FREIRE
Colaboração para a Folha Online

A história de David Coverdale, 56, no rock 'n' roll começou no Deep Purple, na década de 1970. O inglês entrou na famosa banda de hard rock britânico para substituir Ian Gillan, em 1973, gravou três discos de estúdio, mas o grupo encerrou as atividades em 1976 --voltando oito anos depois, sem Coverdale. Levado ao sucesso com a banda, já consagrada, Coverdale gravou dois discos solos antes de montar o Whitesnake, em 1978.

Com a sua própria banda, Coverdale pôde criar um som característico e centrado em sua voz. Após os primeiros álbuns, mais voltados ao blues rock, Coverdale abraçou o hard rock norte-americano e o Whitesnake estourou para o sucesso, principalmente com os discos "Slide it In" (1984) e "Whitesnake" (1987). Em 1985, a banda se apresentou no primeiro Rock in Rio, aumentando sua popularidade no Brasil.

Após dois grandes hiatos, entre 1990 e 1997 e depois entre 1998 e 2003, Coverdale resolveu remontar o seu grupo de hard rock com a dupla de guitarristas Reb Beach (ex-Dokken e Winger) e Doug Aldrich (ex-Dio) para buscar o som consagrado nos anos 80. O primeiro disco de estúdio com a nova formação foi "Good to be Bad", lançado neste ano.

Neste contexto, a banda voltou ao Brasil para algumas apresentações pelo país, e o show em São Paulo era um dos mais esperados. Em sua última turnê por aqui, em 2005, o grupo teve de tocar por pouco mais de uma hora no Anhembi, já que se apresentaria ao lado do grupo de heavy metal Judas Priest, liderado por Rob Halford. Em 2008, a chance era de trazer um set list mais longo e um show com músicas inéditas.

Às 22h30, Coverdale aparece com uma camisa branca e sua vasta cabeleira loira, fazendo sua típica pergunta "vocês estão prontos?", deixando os fãs na expectativa para a música de abertura, "Best Years", do último disco. A nova canção agita o público, mas talvez uma música antiga levantasse os fãs de forma mais contundente no começo da apresentação.

Coverdale, o "Mr. Love", manda beijos, se agarra à caixa de som, roda o pedestal do microfone e bate no peito, mostrando que seu carisma não foi embora com o passar dos anos. "Fool for your Loving", música de 1980 e regravada pela própria banda em 1989, chama mais a atenção do que a primeira, até por ser um dos clássicos da banda.

E a nova formação do Whitesnake mostra coesão, com a dupla de guitarristas conectada a Timothy Drury (teclados), Uriah Duffy (baixo) e Chris Frazier (bateria). Já o veterano vocalista encara bem a pesada "Bad Boys", rasgando um pouco mais a voz do que em tempos anteriores.

Entre as novas "Can You Hear the Wind Blow" e "Lay Down Your Love", o sexteto manda uma de suas faixas mais conhecidas: "Love Ain't No Stranger", de 1984, cantada por todos. Antes dela, Coverdale realiza um belo gesto ao homenageá-la a "um grande amigo", Mel Galley, ex-guitarrista da banda e que sofre de um câncer terminal, revelado recentemente pelo próprio Galley. Em seguida, a balada e conhecidíssima "Is this Love" faz sucesso e é muito aplaudida, principalmente pelo público feminino.

O público variado, de diversas faixas etárias, foi uma das características do show da banda, que atinge vários tipos de fãs de rock. Que, na pista, são prejudicados por um som embolado na frente do palco, que melhora quando se procura o fundo da platéia.
Os fãs também surpreendem e demonstram conhecer o set list inteiro do concerto, incluindo as canções do novo disco e outras não tão famosas. As músicas novas, inclusive, soam melhores e mais pesadas ao vivo do que em estúdio, o que ajuda na aceitação daqueles que não as conhecem. Os refrões, pegajosos como sempre, também contribuem.

A pausa para Coverdale começa com o duelo dos guitarristas Reb Beach e Doug Aldrich, começando na "fritação", com solos rápidos e cheios de notas, e chegando ao blues cadenciado. "Crying in the Rain" é executada depois e inclui um solo de bateria, não muito longo, de Chris Frazier.

Enquanto o vocalista rasga mais a sua voz e agüenta bem os agudos das músicas mais antigas, os outros membros da banda colaboram com backing vocals afinados e potentes, fazendo a parte de Coverdale quando este resolve se poupar. É de praxe, também, o cantor deixar o público entonar os refrões mais conhecidos.

Uma das primeiras surpresas é a versão acústica da pop "The Deeper the Love", que se torna mais serena e menos grudenta do que a original, com Coverdale na voz e Aldrich no violão. Enquanto o show se encaminha ao final, o Whitesnake emenda os sucessos "Give me All your Love Tonight" e "Here I Go Again", antes de trazer de volta "Ain't no Love in the Heart of the City", blues regravado pelo Whitesnake ainda no início da banda.

Depois, a maior surpresa: Coverdale começa a cantar os primeiros versos de "Guilty of Love", grande sucesso da banda no Brasil (dos tempos de Rock in Rio) e que não estava programada no set list. Depois da introdução do vocalista, a banda resolve tocá-la praticamente inteira.

O cantor volta a se destacar em outra música pesada, "Still of the Night", não se esquivando dos agudos apesar de a sua voz ter mudado muito nos últimos 20 anos. Depois, Coverdale canta um trecho de "Soldier of Fortune", que abre espaço para "Burn", maior sucesso do Deep Purple com o atual vocalista do Whitesnake, que ainda emenda um trecho de "Stormbringer", fechando a apresentação da banda no Credicard Hall com uma "tríade" Deep Purple.

O final da apresentação mostra que o Whitesnake cumpriu o seu papel em um Credicard Hall lotado: trouxe de volta os anos 80, resvalando na nostalgia do Rock in Rio, mostrou seu trabalho novo e encarou os sucessos antigos com competência.

Ozzy Osbourne em SP


Presenciei a passagem de Ozzy por terras paulistanas no último dia 5 de abril, no Parque Antarctica. Para mim, minha primeira experiência cobrindo shows no Brasil, já que fui lá pela Folha Online, onde publiquei um review sobre o show, reproduzido abaixo.

Sempre gostei muito da carreira solo do Ozzy, onde ele seguiu um caminho diferente do Black Sabbath e de muita personalidade. Para mim, "Blizzard of Ozz", o primeiro disco (1980), é um dos álbuns mais consistentes do rock 'n' roll e ajudou a reerguer a carreira do "Madman" após sua saída traumática do Sabbath. Contou com uma banda extremamente talentosa, que incluía Randy Rhoads (guitarra), Bob Daisley (baixo), Lee Kerslake (bateria) e Don Airey (teclado, hoje no lugar de Jon Lord no Deep Purple).

Entre os outros discos dos anos 80 e início dos 90, nenhum deles é tão regular quanto o primeiro, apesar de "Diary of a Madman" (1981), "Bark at the Moon" (1983) e "No More Tears" (1992) serem ótimos, com vários clássicos do vocalista. Depois disso, já não me interesso muito pelo resto. Quanto mais recente, pior.

Mas o que estava em jogo mesmo era a disposição, a saúde e a energia de um maltratado Ozzy. Maltratado por uma vida das mais malucas que o rock 'n' roll conheceu, chegando a passar perto da morte algumas vezes. Mas que não evitou a demonstração do vocalista de que ele é acima de tudo isso e que sabe como poucos controlar uma platéia. Talvez o músico mais carismático que eu vi subir ao palco.

Foquei minha crítica nisso, no quanto sua idade não influencia em seu show, mesmo com limitações vocais que Ozzy sempre teve - e que, na verdade, nunca o atrapalharam em sua carreira de sucesso. Ainda mais para o público heavy metal, que respeita muito os atos e a postura de seus ídolos, em detrimento da técnica musical absurda ou exibicionista. Para o fã, em termos gerais, não é isso que conta.

Tudo o que conta foi demonstrado por Ozzy Osbourne no sábado retrasado. E é isso que eu relato em meu review, publicado na Folha Online, e que segue abaixo. Na FOL, tem também os (pequenos) reviews do Korn e do Black Label Society, que abriram as apresentações.

Sem mais delongas, segue o texto.

PS: As fotos são do Marcos Borges, da FOL, que me deu uma grande força no show.

Pioneiro do metal, Ozzy Osbourne demonstra energia em show de SP

MARCELO FREIRE
Colaboração para a Folha Online

Após uma ausência de 13 anos, o cantor Ozzy Osbourne, ex-Black Sabbath, voltou a tocar em São Paulo neste sábado (5), no estádio Parque Antarctica. Uma história que envolve mordidas em um morcego e uma pomba, muitos problemas com drogas, um reality show e bastante rock 'n' roll subiu ao palco no campo do Palmeiras.

Apesar de todas as limitações do vocalista, no alto de seus 59 anos, cerca de 38 mil pessoas foram reverenciar o "príncipe das trevas", que ajudou a criar imagens e símbolos da música pesada. Além de ser um dos pioneiros a executá-la, claro, ainda com o Black Sabbath.


Ozzy já havia passado pelo Brasil em 1985 (no Rock in Rio) e dez anos depois, na segunda edição do finado festival Monsters of Rock, em São Paulo. Dessa maneira, uma geração de jovens fãs brasileiros teve a oportunidade de conferir ao vivo, pela primeira vez, um dos pioneiros do heavy metal.


A abertura ficou com as bandas Black Label Society (liderada pelo guitarrista de sua banda, Zakk Wylde) e Korn. Mesmo com as diferenças de estilo, ambas se saíram bem no papel de "esquentar" o público, que queria mesmo ver a atração principal.


Ozzy Osbourne

O ex-vocalista do Black Sabbath sabe que sua imagem está acima de tudo em sua biografia. Com todas as loucuras envolvendo sua vida pessoal, o cantor criou um mito em torno de si que supera até mesmo seus sucessos musicais. Consciente disso, Ozzy utiliza do carisma para ganhar o público mesmo antes de entrar no palco, com um vídeo no qual o cantor faz paródias de diversos filmes e seriados famosos, como "Borat", "Família Soprano" e "Lost".


A introdução "Carmina Burana" prepara o público para a abertura do set list, com "I Don't Wanna Stop", do disco mais recente de Ozzy Osbourne, "Black Rain" (2007). O hit "Bark at the Moon" vem em seguida, e o cantor demonstra logo suas limitações vocais em músicas que exigem mais de sua voz, como é o caso dessa, a qual Ozzy se esforça muito para executar.

Zakk Wylde, na banda há bastante tempo, também se destaca no show, assim como a "cozinha" formada pelo baterista Mike Bordin (ex-Faith No More), Rob "Blasko" Nicholson (baixo) e o tecladista Adam Wakeman, filho de Rick Wakeman (conhecido por seu trabalho nos teclados do Yes e com uma bem-sucedida carreira solo).


O vocalista se encarrega de puxar o coro "olê, olê, olê", respondido pela platéia com "Ozzy, Ozzy", abrindo caminho para "Suicide Solution", de seu primeiro disco solo, "Blizzard of Ozz" (1980). Jogando baldes de água e gritando o tempo todo para o público, o cantor inicia um de seus maiores sucessos, "Mr. Crowley", cantado em uníssono pelos presentes.


Considerando sua imagem no reality show "The Osbournes", que protagonizava ao lado de sua família, Ozzy até surpreende, saltando o tempo todo no palco. De qualquer forma, sua forma física "relaxada" fica aparente pela grande barriga do vocalista.


"Not Going Away", do último disco, acalma os ânimos, que voltam a se levantar quando Ozzy pergunta se o público gostaria de ouvir uma música do Black Sabbath. "War Pigs", de 1970, traz nostalgia e sorrisos na platéia, que canta a canção junto com o vocalista.

A primeira balada do show é "Road to Nowhere", na qual Ozzy procura agradar o público se enrolando em uma bandeira brasileira. No grande sucesso "Crazy Train", o cantor deixa os fãs cantarem o refrão, talvez em busca de poupar um pouco a sua voz.

Com um sangramento nos dedos após sofrer um corte, Wylde deu início ao seu solo, que durou sete minutos, agradando alguns e cansando outros. "Iron Man", outro clássico da ex-banda, e "I Don't Know", que abre seu disco de estréia, "Blizzard of Ozz", voltaram a levantar os presentes no Parque Antarctica.

As últimas canções foram "No More Tears", "Here for You" (do último disco), "I Don't Want to Change the World", "Mama, I'm Coming Home" e "Paranoid" (do Black Sabbath), considerada por alguns como uma das primeiras canções heavy metal da história.

Concentrando o set list nos consistentes discos "Blizzard of Ozz" (1980) e "No More Tears" (1991), além das três canções do Sabbath e outras três do último disco, Ozzy soube segurar o público do início do show ao seu final, sempre incitando a platéia a gritar e cantar as músicas.

A passagem de Ozzy Osbourne por São Paulo se encerrou com uma promessa de retorno, não tão longo quanto os 13 anos entre o Monsters of Rock de 1995 e esta miniturnê, iniciada com um show no Rio de Janeiro e encerrada com a apresentação na capital paulista.

Mais importante do que a performance do vocalista foi a demonstração de energia aliada à sua imagem de mito do heavy metal, irreverente e carismático, que nunca se leva a sério.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

News of the World

Até algum tempo atrás, o título "News of the World" me lembrava desse disco do Queen, lançado em 1977:


Um bom disco, que contém o quase-medley clássico "We Will Rock You/We Are the Champions". Tem boas músicas, mas para mim não chega nem perto dos antecessores "A Night At the Opera"(1975) e "A Day at the Races" (1976) ou dos sucessores "Jazz" (1978) e "The Game" (1980).

Na minha opinião, esses são os quatro melhores discos da banda, disparado, por serem extremamente consistentes. Daqueles de ouvir da primeira música à última, sem intervalos.

Não é o caso do "News of the World", mais irregular e cujas canções não têm o mesmo brilho das faixas presentes nesses quatro discos.

Hoje, infelizmente, "News of the World" significa isso:



E parece que esse tablóide, talvez o mais deplorável entre todos os semelhantes britânicos, possa ser o responsável por derrubar o presidente da FIA, Max Mosley, por sua orgia nazista e coisa e tal.

Em 3 de junho, os membros da FIA votarão pela permanência ou não de Mosley. Não se sabe o que vai acontecer, mas muitos entendem que, pelo fato de a votação ser secreta, o dirigente vai ter a cara livrada.

Eu não sei se isso vai acontecer. Acho que o sigilo da votação também pode ajudar a alguns membros votarem contra Mosley, por ele não saber a identidade desses votantes. Mas faz sentido que, com a votação secreta, o caso pode ser enterrado sem ninguém levar a culpa por ter absolvido o "comandante".

Respeito, no entanto, ele já não tem. E a pressão sob o dirigente cresce a cada dia. Hoje, a Justiça britânica liberou o "News of the World" a publicar o trecho do vídeo da orgia nazista de volta em seu site. Se você ainda não viu, entre lá e se divirta. Tem até coisa nova, aparentemente.

Acho que, com o tempo, e até para se preservar, nem Mosley agüentará essa pressão.

Ainda mais quando quatro montadoras envolvidas na F-1 (Honda, Toyota, BMW e Mercedes), que injetam uma grana absurda na categoria, também condenam sua brincadeira sadomasoquista.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Os 60 anos de Mel Galley

Reproduzo abaixo texto enviado ao Rock Tales, do amigo e ex-colega de Grande Prêmio Bruno Vicaria. De lá (fevereiro, quando escrevi o texto) para cá, pouca coisa mudou. Apenas que, aparentemente, ele conseguiu o que era mais importante nesse momento da sua vida. Chegou aos 60 anos.

Abaixo segue o texto sobre quem é Mel Galley e o que ele tem passado nos últimos meses.

O triste adeus de Mel Galley

Mel Galley é um guitarrista britânico, nascido em Canock, na Inglaterra, em 8 de março de 1948. Ou seja, está próximo de completar 60 anos. Ficou famoso por tocar algum tempo com o Whitesnake, mas se destacou mesmo em sua banda anterior, o power trio Trapeze, ao lado de Glenn Hughes (baixista, que foi do Trapeze para o Deep Purple) e Dave Holland (baterista, que foi do Trapeze para o Judas Priest).

Infelizmente, esse aniversário do guitarrista pode não acontecer. No começo deste mês, Galley revelou que está com câncer terminal e tem poucos meses de vida. Além disto, escreveu uma carta de despedida aos seus fãs. Reproduzo a nota abaixo, traduzida pela Rock Brigade.

"Os médicos já diagnosticaram minha condição como 'terminal', porém, em vez de ficar sentado me lamentando, quero usar da melhor maneira possível o tempo que me resta com minha família e meus amigos. Fui abençoado com uma esposa fantástica e dois filhos de quem me orgulho muito, por isso, no momento, meu grande objetivo é conseguir celebrar meu aniversário de 60 anos em março. Eu tive uma vida muito boa, viajei o mundo inteiro, tive experiências maravilhosas, encontrei todo tipo de gente e toquei com os melhores músicos. Quando comecei, nos anos 60, jamais imaginei que poderia chegar tão longe. Não esquecerei experiências como tocar para 100 mil pessoas em Dallas (Texas) no mesmo festival com Rolling Stones, The Eagles e Montrose, em 1975. Também foi inesquecível o Monsters Of Rock (Inglaterra) de 1983, quando eu estava no Whitesnake. São tantos tesouros em minha vida que seria impossível lembrar de todos."

"Depois que minha doença foi divulgada, recebi mensagens do mundo inteiro, inclusive de amigos com quem eu não falava há muitos anos. Eu honestamente não imaginava que tantas pessoas ainda se lembravam de meu trabalho e apenas sinto não poder tocar todos os shows que eu havia planejado para este ano", diz ele, para finalizar: "Agradeço a todos pelo apoio ao longo de tantos anos. Vocês são a música, eu apenas estava numa banda".

Essa frase final de Galley é uma referência a uma das músicas mais famosas do Trapeze, de nome "You Are the Music, We`re Just the Band", também o título do terceiro álbum do grupo.
Na verdade, o Trapeze começou com cinco integrantes. A viagem do primeiro disco (de 1970), ainda um pouco na veia pop/psicodélica dos anos 1960, pode não ter sido a melhor das estréias. Mas, quando a banda se estabeleceu apenas com Galley, Hughes (também vocalista, além de baixista) e Holland, as coisas começaram a funcionar.


Muito influenciado pelo funk, o trio gravou dois clássicos: Medusa (1970) e o já mencionado You Are the Music, We`re Just the Band. Basicamente, são dois discos pesadões de funk rock, com ótimas baladas e uma pegada soul no vocal de Hughes, o que ele também carregaria consigo para o Deep Purple (para desespero de Ritchie Blackmore).

Como registro, deixo as músicas "Your Love is Alright", "Touch my Life", "Seafull", "Black Cloud", "Way Back to the Bone", "Coast to Coast" e a própria "You Are the Music" para se conhecer um pouco mais sobre essa banda. Vale a pena ouvir. Para mim, o Trapeze lembra um pouco aqueles bons times de futebol do interior onde vários jogadores aparecem em um determinado campeonato e aí vem os times grandes e compram os caras. E cada um segue um caminho diferente.

Foi isso que aconteceu com a banda. Primeiro, Hughes zarpou para o Purple, no lugar de Roger Glover, que saiu junto com Ian Gillan. Gravou três discos com os caras, trouxe as influências funk para a banda, mas quando o Purple encerrou as atividades em 1976, por causa das fracas perfomances ao vivo na turnê do ótimo Come Taste the Band (1975), aliadas aos sérios problemas de Hughes e do guitarrista Tommy Bolin com as drogas. Bolin morreu de overdose de heroína em dezembro de 76, oito meses após o fim do Deep Purple, que só voltaria (com a formação clássica e sem Coverdale e Hughes) em 1984.

Nesse meio tempo, o Trapeze continuou batalhando, lançando mais alguns discos com uma nova formação. Depois de se reunir rapidamente com Hughes após o fim do Purple, a banda seguiu sem seu baixista original, gravou mais um álbum (Hold On, 1978) e encerrou as atividades no final da década de 1970, quando Holland seguiu para o Judas. Depois, Galley se juntou ao Whitesnake.

Enquanto Hughes batalhou contra as drogas e cantou com todo mundo, Holland se deu bem no Judas, apesar de sofrer algumas críticas devido ao jeito "durão" de tocar. Depois de sair do Priest para dar lugar ao "metal" Scott Travis, Holland se reuniu por algum tempo com Hughes e Galley, em 1991, e depois acabou ficando famoso por ter sido preso há uns três anos, acusado de abusar sexualmente de um aluno de bateria de 17 anos.

Quanto a Galley, que motivou esse post, ele entrou no Whitesnake por volta de 1982, no lugar do guitarrista Bernie Marsden, fazendo dupla com o outro guitarrisa, Mick Moody. Essa ainda era a fase mais blues do grupo de David Coverdale, mas que já caminhava em direção ao hard rock "poser". Galley gravou um pedaço de Saints and Sinners (1982) e outro pedaço de Slide It In (1984). Digo "pedaço" porque ambos os álbuns foram produzidos em um momento de mudança de formação do Whitesnake, não ficando muito claro o que foi gravado por quem. De qualquer maneira, Galley escreveu diversas músicas de Slide It In em parceria com Coverdale, como a clássica "Love Ain`t No Stranger".


A saída de Galley da banda foi, no mínimo, estranha. De acordo com a biografia do Whitesnake escrita por Vitão Bonesso, na seção "Background" da edição número 22 da revista Roadie Crew (julho/agosto 2000), Galley brincava com carrinhos de supermercado com John Sykes (que tinha entrado no Whitesnake na vaga de Mick Moody) em um dia de folga da banda, depois de tomarem umas e outras, no início de 1984. Sykes acabou passando com um carrinho por cima da mão esquerda de Galley, que teve todos os seus tendões rompidos. Ele acabou não retornando mais à banda, até porque já havia brigado com Coverdale por causa da versão norte-americana de Slide It In, onde muitos de seus trechos de guitarra desapareceram devido a problemas com produtores e remixagens. Acabou perdendo a histórica apresentação da banda no Rock in Rio, em janeiro de 1985.

De qualquer maneira, Galley tocou no festival Monsters of Rock de 1983, onde o Whitesnake foi o headliner. Foi o show mais famoso que o guitarrista fez enquanto esteve na banda, até citado pelo mesmo em sua carta de despedida. Carta essa que é emocionante, encorajadora e, ao mesmo tempo, triste. Mas como ele mesmo disse, o cara fez de tudo na vida. Depois de tanto Rock 'n' Roll, que Mel Galley descanse em muita paz.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Tuvucanadá: Van Halen

Um grande valeu ao amigaço Eric Hodama, que conheci no Canadá e me forneceu as fotos (ele ficou em um lugar bem melhor do que o meu no show).

Irreverência, guitarras e Rock 'n' Roll

Por Marcelo Tuvuca Freire


Meu primeiro post no Rock Tales, grande idéia do amigo Bruno Vicaria, é sobre uma das minhas maiores e melhores experiências com o Rock 'n' Roll.

Em agosto do ano passado, o Van Halen anunciou que se reuniria com David Lee Roth, seu vocalista original. Seu último show com a banda havia sido na turnê do disco "1984", o clássico que continha Jump, Panama, Hot For Teacher, I'll Wait e outras grandes músicas.

Eu já planejava ir para Toronto em setembro, e quando descobri sobre o show tentei comprar o ingresso pela internet. Tinha conseguido isso com o Rush, que eu também presenciei em terras canadenses, mas não foi possível com o VH. No meu segundo dia em Toronto, fui à bilheteria do Air Canada Centre e consegui comprar. Era um péssimo lugar, ruim de assistir, mas pra ver Eddie e Diamond Dave juntos valia muito a pena.

Fui ao ACC para assistir ao show, bem diferente de como seria aqui. Lá, o público se empaturra de pipocas, hot-dogs e refrigerantes. Não existe confusão em relação a ingressos: você senta onde está marcado. Mas, diferentemente do que aconteceu no show do Rush que eu assisti (no mesmo Air Canada Centre), no VH a galera agitou bastante e cantou as músicas.

Nada comparado com o que aconteceria aqui, obviamente. Aliás, eles deveriam voltar para os brasileiros conferirem a nova formação (Eddie, Alex, David e Wolfgang Van Halen, filho de Eddie). Para quem não se lembra, o Van Halen tocou aqui em 1983, no ginásio do Ibirapuera, durante a turnê do disco "Diver Down".

Abaixo, está o review que eu escrevi para a revista Rock Brigade, publicado no mês de dezembro. Nele, estão todos os detalhes do show, inclusive set-list. Essa pequena apresentação foi apenas para ambientar o que foi vivenciado no ACC. O que o show me provou foi a necessidade de David Lee Roth voltar à banda.

Para mim, não interessa que o cara é um grande mala, nem que ele e Eddie não se suportam. Também não sei quanto tempo essa reunião vai durar. O que importa é que David claramente inspira Eddie a tirar o melhor de sua performance - e esse é um dos mais criativos guitarristas da história do Rock.

Outro ponto alto foi o set, baseado apenas nas músicas de David com a banda (1978-84). Eu adoro Sammy Hagar (que ficou no VH entre 1985 e 1996, voltando para uma turnê em 2004), mas acho que o fato de o "Red Rocker" não cantar muitas músicas da época de Roth fez com que Eddie sentisse muita falta de tocar esse material. Afinal, foram essas canções que fizeram a banda estourar no mundo inteiro. Dava pra ver o tesão na cara do guitarrista, empolgadaço, dedilhando a maravilhosa Ì'm the One, do primeiro disco.

O show foi realmente inesquecível, um dos melhores que eu já assisti. A banda esteve (quase) perfeita, e o set foi inacreditável. Mas isso eu deixo para vocês lerem no review.

Um abraço a todos.

Van Halen – Air Canada Centre, Toronto 7/10/2007

Review por Marcelo Freire

Quando os irmãos Van Halen anunciaram uma reunião com David Lee Roth, em agosto deste ano, a primeira pergunta que todos fizeram foi: será que desta vez rola mesmo?

Desde que Sammy Hagar saiu da banda, em 1996, uma possível turnê com seu vocalista original sempre é cogitada. Nesse meio tempo, Gary Cherone, ex-Extreme, entrou e foi demitido do grupo, que depois saiu em turnê com o próprio Hagar durante alguns meses, em 2004, até as brigas entre os integrantes cancelarem os planos da banda. Dessa maneira, a volta (até o momento provisória) de David Lee ao Van Halen não é exatamente uma surpresa.

A surpresa maior ficou por conta do desprezo dos irmãos por Michael Anthony, baixista da banda desde 1974. Em seu lugar, o guitarrista e o baterista trouxeram ninguém menos que o filho de Eddie, Wolfgang Van Halen, de apenas 16 anos. É nesse contexto que o Van Halen sobe ao palco do lotado Air Canada Centre, em Toronto, para dar início ao quarto show desta turnê.


Eddie entra sorridente, pulando e desferindo o riff de You Really Got Me, para delírio do público canadense. David aparece agitando uma bandeira vermelha, no fundo do palco. A performance da banda é empolgante, assim como o abraço entre David Lee e Eddie ao final da canção.

O set-list, logicamente, inclui apenas músicas da fase inicial do grupo norte-americano, até 1984. O show prossegue com I'm the One e Runnin' With the Devil, e Roth prova que ainda está em ótima forma. Mas o destaque mesmo é Eddie Van Halen. Ele pode ser controverso, mas quando está no palco se transforma em um deus da guitarra. Mais importante, parece tocar como se fosse seu último show, no alto de seus 52 anos. O guitarrista transmite para a platéia toda essa energia, distribuindo sorrisos, como se estivesse fora dos palcos há duas décadas.
A banda continua despejando seus hits com Romeo Delight (música de abertura da única turnê da banda por terras brasileiras, em 1983), a energética Somebody Get me a Doctor (um dos melhores riffs já compostos por Eddie), Beautiful Girls e a 'alegre' Dance the Night Away, muito bem-recebida pela platéia.


Nesse momento, já era possível notar que a química entre Eddie e David está sempre acesa, mesmo que os dois estejam bem longe de ser grandes amigos. Roth completa como ninguém a performance agitada e cheia de energia de Eddie. Apesar disso, o vocalista demonstra uma certa comodidade no palco, se poupando em algumas músicas. Sua performance, na verdade, se assemelha muito àquela do festival Live' n' Louder de 2006, em São Paulo. Mesmo assim, David Lee Roth sabe hipnotizar a platéia e deixá-la em suas mãos durante todo o tempo.

Após a banda tocar Atomic Punk, pérola do primeiro disco, o vocalista mostra suas habilidades sonoras ao imitar o som de uma moto com a sua boca, 'duelando' com Eddie Van Halen em Everybody Wants Some. O grupo segue o set-list –muito bem escolhido e estruturado, por sinal– com So This is Love?, Mean Streets e (Oh) Pretty Woman, levantando o público com um cover que todos conhecem. Ao final da música, é a vez de Alex Van Halen demonstrar suas habilidades, executando um solo de bateria simples e não muito longo, mas de ótimo gosto.


Unchained é a próxima, e David, como de costume, mais grita do que canta tal música, deixando grande parte das letras para pai e filho Van Halen, que fazem os backing vocals. E eles não decepcionam, demonstrando afinação e fidelidade às versões de estúdio. Se compararmos a performance do Van Halen do início da década de 1980 com a desta turnê, nota-se que os backing vocals melhoraram consideravelmente.

A balada I'll Wait tranquiliza um pouco o ambiente antes de And the Cradle Will Rock, talvez a música mais bem executada do show, pesada e muito fiel à versão original. É a vez de Hot for Teacher levantar o público, seguida por Little Dreamer, Little Guitars, Jamie's Crying e Ice Cream Man.

Com o show chegando à sua parte final, é preciso analisar a performance do 'moleque' Wolfgang Van Halen. Primeiro, é claro que Michael Anthony faz muita falta para o grupo. O baixista, sempre em segundo plano, ajudou a criar a imagem e o estilo do Van Halen durante os 30 anos de existência da banda. Com apenas 16 anos, esse é um fardo que Wolfgang precisa superar. Ele ainda é inseguro e tímido no palco, sem saber direito onde ficar. Mas não cometeu erros e sempre olhava o pai como exemplo, literalmente, indo atrás de Eddie durante a apresentação.

O guitarrista busca dar moral para o filho, 'duelando' e fazendo brincadeiras com Wolfgang. De qualquer maneira, é muito estranho ver um show do Van Halen sem Michael Anthony no palco. Depois de Ice Cream Man, a banda inicia um de seus maiores clássicos, Panama, que deixa todos em pé antes do solo de Eddie. O guitarrista se joga no chão (sem a agilidade de outros tempos, obviamente), executa trechos de músicas instrumentais (sendo Eruption a mais fácil de se reconhecer) e lança um sonoro "we're a fuckin' band now!" antes de Ain't Talkin' 'Bout Love, outro clássico que faz todos no Air Canada Centre cantarem.

Após o vigésimo abraço entre David e Eddie, a banda se despede antes de voltar para o bis. Logo depois, ouve-se a introdução 1984, que esquenta o ambiente para Jump, maior hit da banda em sua história. Confetes caem sob o público e David Lee Roth 'chama' a platéia para cantar com um gigante microfone inflável. O vocalista ainda demonstra suas habilidades no kung-fu, fazendo malabarismos com um bastão durante o solo de teclado de Jump.

Ao final da apresentação, enquanto todos saíam do Air Canada Centre com um sorriso 'colado' no rosto, vêm as perguntas. Até quando essa reunião vai durar? Será que os irmãos Van Halen, famosos pelo temperamento complicado, aguentarão o imprevísivel e inconseqüente David Lee Roth por muito tempo? Existem planos para um novo disco de estúdio? Teria Michael Anthony espaço nessa nova encarnação da banda?

Nada disso pode ser respondido ainda. Mas uma coisa é certa: a equação Eddie Van Halen + David Lee Roth é igual a Van Halen. Roth tem o espírito boêmio, irreverente e festeiro do grupo, e Eddie reconhece isso. Resta saber por quanto tempo a lua-de-mel vai durar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Saudoso Peverett, Grande Foghat

Fui apresentado ao Foghat em 1998, mais ou menos, por um amigo mais velho que conhecia várias bandas americanas de hard rock dos anos 1970 e me mostrou essa. Primeira música que eu ouvi? O hit "Slow Ride", claro.

Dedico esse post, na verdade, ao vocalista e guitarrista do Foghat, "Lonesome" Dave Peverett, que morreu há exatamente oito anos, vítima de câncer, com 57 anos. Algum tempo antes, ele tinha remontado a banda com sua formação clássica e, mesmo doente, continuou a tocar pelos palcos da América do Norte até quando a doença permitiu. Aparentemente, seu último show com a banda foi em 16 de outubro de 1999, em Las Vegas, quatro meses antes de morrer. Já estava bem magro e com aparência de doente, mas não abandonou o rock 'n' roll.

Apesar do som norte-americano, o Foghat é, na verdade, britânico. Surgiu das raízes de uma banda inglesa chamada Savoy Brown, que mesclava blues e rock 'n' roll, da qual saíram Peverett, o baixista Tony Stevens e o baterista Roger Earl, fundadores do Foghat. Chamaram mais um guitarrista (que mandava muito bem na slide guitar), Rod Price, e se mandaram para os EUA.

O cover de "I Just Want to Make Love to You" foi o primeiro hit dos caras, fazendo parte do disco de estréia, auto-intitulado, de 1972. Os próximos discos, Foghat (Rock and Roll) (1973), Energized (1974) e Rock and Roll Outlaws (1974) pavimentaram o sucesso para vôos maiores em 1975, com o classicaço Fool for the City.

Desse disco, veio o maior hit do Foghat, "Slow Ride", e mais outras grandes músicas, como a faixa-título e o cover de "My Babe". Nessa época, Tony Stevens já havia deixado o grupo e o produtor Nick Jameson tocou baixo em Fool for the City; no disco seguinte, Night Shift (1976), a vaga já estava preenchida por Craig McGregor, que ficaria por um tempão na banda.

O segundo disco clássico da banda foi Foghat Live (1977), um daqueles ao vivo cheios de energia, pesados e inspirados que a década de 1970 produziu (Kiss Alive!, de 1975, é um destes exemplos). Com apenas seis músicas, o disco reforçou o Foghat como uma das maiores bandas norte-americanas na época (mesmo sendo britânica). Ao que parece, também ficaram conhecidos no Brasil; hoje em dia, no entanto, são poucas pessoas que conhecem os caras. Com a dedicação da Kiss FM em São Paulo, já ouvi Foghat mais de uma vez na rádio. E Slow Ride vem recebendo o reconhecimento que merece. Nos EUA, por exemplo, ela já tocou até em um episódio de Seinfeld! E está na trilha sonora de diversos filmes, como o grande Jovens, Loucos e Rebeldes, feito no início dos anos 1990 sobre os jovens da década de 1970. Um dia posto sobre esse filme, um dos meus favoritos.

Mas enfim, depois disso o grupo ainda lançou alguns discos bons (como Stone Blue, de 1978), passou pelas fatídicas mudanças de formação e caiu na mesmice dos anos 1980, quando todas essas grandes bandas de hard rock se perderam. Ficou meio oito ou oitenta: ou você seguia o caminho pesado do heavy metal (iniciado por Judas Priest, UFO e Scorpions) ou seguia o caminho "seguro" dos anos 1980, eletronizando e colocando teclados em tudo (o UFO, já citado como um dos pioneiros do heavy metal, foi nessa direção e acabou quebrando a cara).

O Foghat resolveu seguir como uma banda de blues rock, menos pesada e um pouco mais pop. Com o tempo, desapareceu, voltando na década de 1990 com sua formação original. E o homenageado "Lonesome" era uma das melhores coisas da banda com seu vocal alto e afinadíssimo, cujo timbre assemelhava-se ao de Mark Farner, do Grand Funk Railroad (aquele que canta "Feelin' Alright" e "The Loco-Motion", e não "We`re an American Band", vocalizada pelo baterista Don Brewer).

Eles também mostraram nos EUA que a música pesada era um ótimo caminho para as bandas iniciantes. Ao lado do Aerosmith, que também estava em seu início, pavimentaram o caminho para o Van Halen, por exemplo.

Aliás, esse hard blues rock pesadão nunca mais foi o mesmo quando chegou o ano de 1980. Alguns caras, como o Lenny Kravitz, tentaram resgatar isso, até com qualidade e sucesso. Mas a originalidade, criatividade e talento da turma de "Lonesome" Dave Peverett ainda merece destaque e reconhecimento maiores.

Eu já era um grande fã da banda quando Peverett morreu, em 2000. Já tinha até cd dos caras. Fiquei realmente triste, foi um dos primeiros caras do rock 'n' roll que morreram e me deixaram chateado. Naquela época, ouvia muito as bandas setentistas, até mais do que agora.

Mas o engraçado é que, por algum motivo, estou voltando a ouvir.