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terça-feira, 10 de junho de 2008

Tuvucanadá: Montréal

Neste último final de semana, tivemos o GP do Canadá de F-1, disputado no circuito Gilles Villeneuve, em Montréal. Cidade que eu fiz questão de visitar, obviamente, em minha jornada franco-canadense.

Fiquei por seis dias em Montréal, que é um belíssimo lugar. Cosmopolita, mas que guarda o charme da velha cidade fundada pelos franceses no século XVI. Duzentos anos depois, foi tomada pelos britânicos, mantendo as raízes gaulesas, assim como Québec City. A veia separatista, no entanto, não me pareceu tão forte em Montréal como acontece na capital da província de Québec.

O post não será longo como os outros textos canadenses, apenas quero descrever minhas impressões sobre o circuito, que fica na Ile de Notre Dame, uma ilha artificial criada com pedras retiradas das escavações para a construção do metrô (o charmoso "Metró" de Montréal). Ela foi elaborada para a Expo 67, feira mundial de exposições realizada na cidade em 1967, um evento marcado pela consolidação da identidade dos "Quebécois" e que contou com a presença de diversos personagens importantes, como o presidente dos EUA na época, Lyndon Johnson, a rainha Elizabeth II, e Charles de Gaulle, presidente francês (autor da famosa frase "Vive le Québec libre" durante um discurso no evento, o que causou um incidente diplomático com o Canadá e incendiou os separatistas franco-canadenses).



O que tenho a dizer é que a pista, que se esfarelou e causou inúmeros problemas aos pilotos neste final de semana da F-1, é maravilhosa. E, como fica em um parque, é aberta a qualquer um que queira visitá-la. Não tive problemas para entrar e tirar as fotos, inclusive do famoso Muro dos Campeões, junto à reta dos boxes, no qual todo piloto de verdade (Michael Schumacher, Jacques Villeneuve, Damon Hill, Mika Hakkinen, Jenson Button, Juan Pablo Montoya, entre muitos outros) já bateu pelo menos uma vez na carreira. A marca do muro está lá, eterna.

Andei quilômetros pela pista, vazia. Não há muito o que dizer, estava tudo desmontado. Deu para admirar toda a "natureza artificial", maravilhosa, e que traz uma ótima sensação de tranqüilidade, quebrada pela corrida da F-1 uma vez por ano. Tem também o belo Cassino du Montréal, onde os bem-bonados gastam toda sua grana.


Fico triste com a possibilidade de cancelamento do GP de Montréal, considerando todos os problemas do circuito. Além da pista esfarelada, as áreas de escape sempre foram pequenas (e sem muita possibilidade de expansão), mas acho que a organização do autódromo deve se preocupar mais com sua preservação, pois é um local histórico e maravilhoso. Merece a F-1, por tudo que representa.

É uma pista rápida, com um belo cenário e histórico para a categoria. Marcou a primeira vitória do nativo Gilles Villeneuve na F-1, em 1978, no debút das etapas em Montréal. Para mim, Villeneuve é o maior piloto da F-1 que nunca ganhou um título (até porque morreu em 1982, com apenas 32 anos, antes de concretizar seu sonho). Foi um showman da categoria, sempre pilotando com a faca nos dentes, e recebeu uma bela homenagem no circuito.

No domingo, Robert Kubica levantou a taça de vencedor na F-1 pela primeira vez. Também foi a primeira vitória da história da Polônia, assim como Montréal inaugurou os triunfos do Canadá na categoria com a vitória de Gilles em 1978. A pista ainda celebrou as primeiras vitórias na F-1 de Lewis Hamilton, no ano passado, e de Thierry Boutsen, em 1989. Em 1995, Montréal foi palco do único triunfo de Jean Alesi na F-1, em uma corrida na qual Rubens Barrichello chegou, pela primeira vez na carreira, em segundo lugar. Em 1991, o circuito viu Nelson Piquet levar sua última das 23 vitórias na categoria em seu ano de despedida, pela Benetton, após Nigel Mansell (de Williams) perder a liderança na volta derradeira por causa de um(a) problema elétrico no carro/cagada sua (nunca foi totalmente esclarecido).

A F-1 não pode perder Montréal, e a recíproca é verdadeira. Depois de conhecer o autódromo, meu sonho agora é assistir ao GP do Canadá das arquibancadas do circuito Gilles Villeneuve.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Tuvucanadá: Mont-Tremblant

Já contei aqui sobre as minhas experiências rock 'n' roll do Canadá. Basicamente, os shows do Rush e do Van Halen.

Agora, relatarei um pouco sobre outras "descobertas" na terra franco-britânica, ou franco-inglesa, ou anglo-francesa, como preferir. Basicamente é uma província francesa chamada Québec, com uma forte veia separatista em relação às províncias britânicas. Os "québécois", naturais da província de Québec, já puderam decidir pela independência por duas vezes, em referendos realizados em 1980 e 1995. Mas, por uma apertada margem de votos, os quebequoenses decidiram contra a separação. Todas as outras nove províncias (e três territórios) canadenses, ressalte, são de origem britânica.

Pela forte influência da colonização francesa, Québec é o lugar mais inusitado e diferente que eu vi enquanto estive lá, nada a ver com a multicultural Toronto, que tem gente do mundo inteiro. Québec City, ou Ville du Québec, ex-capital canadense e atual capital da província, é a cidade mais charmosa que conheci. Apesar de toda essa contextualização, não falarei de Québec Cirty nesse post - deixemos para mais tarde.

Mont-Tremblant

Enquanto Montréal, principal pólo econômico da província de Québec, é uma mistura maluca entre inglês e francês, "québécois" e "canadians", Mont-Tremblant, a 130 km da cidade-sede da Olimpíada de 1976, é um município que sobrevive do inverno e das estações de esqui como atrações turísticas.

Conheci o vilarejo no final do outono, mas cheguei a pegar um dia de neve. Mais ou menos sete graus negativos. A cidade era uma graça, uma Campos do Jordão muito menor, com cerca de 8 mil habitantes. Final de outubro, Mont-Tremblant não tinha turistas e era de um marasmo previsível.



Mas o que eu queria ver mesmo (e fui para lá exclusivamente para isso) era o tal do Circuit Mont-Tremblant. Uma pista de corrida no meio da montanha? Como isso? Sediou corridas de F-1 (1968 e 1970)? Servia uma prova da finada Champ Car no ano passado?


Fui atrás. Saí de Montréal com um pessoal do albergue, pegamos o metrô até uma cidade vizinha chamada St. Jêrome (parada final de uma das linhas do metrô de Montréal) e de lá a solução era um ônibus até Mont-Tremblant. Tudo isso por CAD$ 10, em vez dos CAD$ 25 que custariam a passagem do ônibus de viagem, direto de Montréal. Demorou uma hora a mais, mas valeu a pena, até pela experiência.

Chegando lá, a primeira coisa (e praticamente a única) que eu queria fazer era conhecer aquele misterioso autódromo. Era pertinho do albergue, andei até lá e fui sacando a entrada do lugar, que mais parecia uma daquelas estradinhas de sítio no interior de São Paulo. Não dava para acreditar que, atrás de um grande lago (que congela no inverno, consta), existia uma pista de corridas.

E a primeira impressão fica mesmo pela entrada, de cascalho e terra. Se não fosse o típico cenário de inverno, parece que estamos rumo a um rodeio. Imagino um circuito como Interlagos ou Montréal com um acesso daqueles. Está certo que o nosso autódromo José Carlos Pace tem entradas problemáticas, mas são várias, pelo menos. Em Mont-Tremblant, só a tal estrada de terra.

Com a entrada fechada, é lógico que eu pulei para ingressar no circuito, já que eu tinha vindo de muito longe, sabia que qualquer um entenderia. Só estava com medo de huskies siberianos ou cachorros são-bernardo me atacarem pela invasão. Para minha sorte, não havia rigorosamente ninguém cuidando do circuito. Nenhuma alma penada.

Daí, fiz a festa, enquanto um amigo belga do albergue (não é trocadilho) me esperava lá fora. Pela primeira vez, tive contato com um cenário diferente do automobilismo. Feito em uma cidade minúscula e no meio da montanha, longe de tudo (a coisa mais perto é Montréal), você nota que a preocupação com o mundo "profissional" da F-1 e do automobilismo em geral é nula.


Um circuito pequeno, uma pista ajeitadinha. Apertada, porém. Ficava imaginando Jackie Stewart, Jochen Rindt, Graham Hill, Denny Hulme e John Surtees, entre outros, acelerando seus bólidos em uma época diferente da F-1. Uma época em que se corria onde era possível. Não pretendo ser saudosista a respeito desses tempos. Mas fica pela constatação do que se tornou um palco de corridas de Grande Prêmio há 40 anos.
A torre de controle, o tal do hospitality center, é tudo no mesmo lugar, aparentemente. Pequeno, mas acho que conseguem fazer tudo caber lá. Afinal, quase nunca o autódromo, reformado recentemente, sedia corridas. A ambulância também estava lá parada, sem ninguém para cuidar.

No meio do traçado, uma construção com os dizeres "Jim Russel Internacional Racing Drivers School". Fiquei pensando que, em uma cidade com 8 mil habitantes, localizada em uma região de população pequena, quantos gostariam de ter aulas com o ilustre Jim Russel. Creio que poucos. Não é à toa que a construção já estava completamente desgastada. Se fosse no Brasil, diriam que está criando dengue. Também me chamou a atenção o nome em inglês, raro em terras franco-canadenses.

O que deixo para o final, no entanto, é o maravilhoso cenário. Um circuito com uma montanha ao fundo, coberta pelo gelo. A pista com nada menos do que rochas em áreas de escape. Um traçado com freqüentes subidas e descidas em meio à montanha.



Me senti em um museu no Circuit Mont-Tremblant. Para alguns, podia ser triste e melancólico. Mas, para falar a verdade, fiquei honrado em conhecer um local que tem história no automobilismo, por mais distante que seja da realidade atual do esporte.

Afinal, por menor que seja a história de Mont-Tremblant na F-1 (e contando todas as suas limitações atuais), o circuito está lá de pé. Jacarepaguá, em uma cidade com 6 milhões de habitantes e com muito mais história na principal categoria do automobilismo, está destruído.

Isso sim é melancólico e triste.


PS: Estive no Rio de Janeiro em novembro de 2006, para cobrir uma etapa da Stock Car em Jacarepaguá pelo Grande Prêmio. O mato cobrindo boa parte do autódromo e o descuido para com o mesmo demonstrava o real "interesse" de a prefeitura preservar o templo. Que, naquela época, já estava destruído para a construção de sedes dos Jogos Pan-Americanos. Parece um fazendão, como mostram as fotos que eu tirei.



PS 2: Escalei uma montanha em Mont-Tremblant nesse mesmo dia (não aquela) e fiquei maravilhado com a beleza do local. Com certeza, esse visual ficará na minha memória em toda a minha vida. A minha foto de boina, que ilustra esse blog, é desse dia.



PS 3: Esse é o quão perto eu cheguei do gigante Mont-Tremblant, após a cansativa escalada.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Tuvucanadá: Van Halen

Um grande valeu ao amigaço Eric Hodama, que conheci no Canadá e me forneceu as fotos (ele ficou em um lugar bem melhor do que o meu no show).

Irreverência, guitarras e Rock 'n' Roll

Por Marcelo Tuvuca Freire


Meu primeiro post no Rock Tales, grande idéia do amigo Bruno Vicaria, é sobre uma das minhas maiores e melhores experiências com o Rock 'n' Roll.

Em agosto do ano passado, o Van Halen anunciou que se reuniria com David Lee Roth, seu vocalista original. Seu último show com a banda havia sido na turnê do disco "1984", o clássico que continha Jump, Panama, Hot For Teacher, I'll Wait e outras grandes músicas.

Eu já planejava ir para Toronto em setembro, e quando descobri sobre o show tentei comprar o ingresso pela internet. Tinha conseguido isso com o Rush, que eu também presenciei em terras canadenses, mas não foi possível com o VH. No meu segundo dia em Toronto, fui à bilheteria do Air Canada Centre e consegui comprar. Era um péssimo lugar, ruim de assistir, mas pra ver Eddie e Diamond Dave juntos valia muito a pena.

Fui ao ACC para assistir ao show, bem diferente de como seria aqui. Lá, o público se empaturra de pipocas, hot-dogs e refrigerantes. Não existe confusão em relação a ingressos: você senta onde está marcado. Mas, diferentemente do que aconteceu no show do Rush que eu assisti (no mesmo Air Canada Centre), no VH a galera agitou bastante e cantou as músicas.

Nada comparado com o que aconteceria aqui, obviamente. Aliás, eles deveriam voltar para os brasileiros conferirem a nova formação (Eddie, Alex, David e Wolfgang Van Halen, filho de Eddie). Para quem não se lembra, o Van Halen tocou aqui em 1983, no ginásio do Ibirapuera, durante a turnê do disco "Diver Down".

Abaixo, está o review que eu escrevi para a revista Rock Brigade, publicado no mês de dezembro. Nele, estão todos os detalhes do show, inclusive set-list. Essa pequena apresentação foi apenas para ambientar o que foi vivenciado no ACC. O que o show me provou foi a necessidade de David Lee Roth voltar à banda.

Para mim, não interessa que o cara é um grande mala, nem que ele e Eddie não se suportam. Também não sei quanto tempo essa reunião vai durar. O que importa é que David claramente inspira Eddie a tirar o melhor de sua performance - e esse é um dos mais criativos guitarristas da história do Rock.

Outro ponto alto foi o set, baseado apenas nas músicas de David com a banda (1978-84). Eu adoro Sammy Hagar (que ficou no VH entre 1985 e 1996, voltando para uma turnê em 2004), mas acho que o fato de o "Red Rocker" não cantar muitas músicas da época de Roth fez com que Eddie sentisse muita falta de tocar esse material. Afinal, foram essas canções que fizeram a banda estourar no mundo inteiro. Dava pra ver o tesão na cara do guitarrista, empolgadaço, dedilhando a maravilhosa Ì'm the One, do primeiro disco.

O show foi realmente inesquecível, um dos melhores que eu já assisti. A banda esteve (quase) perfeita, e o set foi inacreditável. Mas isso eu deixo para vocês lerem no review.

Um abraço a todos.

Van Halen – Air Canada Centre, Toronto 7/10/2007

Review por Marcelo Freire

Quando os irmãos Van Halen anunciaram uma reunião com David Lee Roth, em agosto deste ano, a primeira pergunta que todos fizeram foi: será que desta vez rola mesmo?

Desde que Sammy Hagar saiu da banda, em 1996, uma possível turnê com seu vocalista original sempre é cogitada. Nesse meio tempo, Gary Cherone, ex-Extreme, entrou e foi demitido do grupo, que depois saiu em turnê com o próprio Hagar durante alguns meses, em 2004, até as brigas entre os integrantes cancelarem os planos da banda. Dessa maneira, a volta (até o momento provisória) de David Lee ao Van Halen não é exatamente uma surpresa.

A surpresa maior ficou por conta do desprezo dos irmãos por Michael Anthony, baixista da banda desde 1974. Em seu lugar, o guitarrista e o baterista trouxeram ninguém menos que o filho de Eddie, Wolfgang Van Halen, de apenas 16 anos. É nesse contexto que o Van Halen sobe ao palco do lotado Air Canada Centre, em Toronto, para dar início ao quarto show desta turnê.


Eddie entra sorridente, pulando e desferindo o riff de You Really Got Me, para delírio do público canadense. David aparece agitando uma bandeira vermelha, no fundo do palco. A performance da banda é empolgante, assim como o abraço entre David Lee e Eddie ao final da canção.

O set-list, logicamente, inclui apenas músicas da fase inicial do grupo norte-americano, até 1984. O show prossegue com I'm the One e Runnin' With the Devil, e Roth prova que ainda está em ótima forma. Mas o destaque mesmo é Eddie Van Halen. Ele pode ser controverso, mas quando está no palco se transforma em um deus da guitarra. Mais importante, parece tocar como se fosse seu último show, no alto de seus 52 anos. O guitarrista transmite para a platéia toda essa energia, distribuindo sorrisos, como se estivesse fora dos palcos há duas décadas.
A banda continua despejando seus hits com Romeo Delight (música de abertura da única turnê da banda por terras brasileiras, em 1983), a energética Somebody Get me a Doctor (um dos melhores riffs já compostos por Eddie), Beautiful Girls e a 'alegre' Dance the Night Away, muito bem-recebida pela platéia.


Nesse momento, já era possível notar que a química entre Eddie e David está sempre acesa, mesmo que os dois estejam bem longe de ser grandes amigos. Roth completa como ninguém a performance agitada e cheia de energia de Eddie. Apesar disso, o vocalista demonstra uma certa comodidade no palco, se poupando em algumas músicas. Sua performance, na verdade, se assemelha muito àquela do festival Live' n' Louder de 2006, em São Paulo. Mesmo assim, David Lee Roth sabe hipnotizar a platéia e deixá-la em suas mãos durante todo o tempo.

Após a banda tocar Atomic Punk, pérola do primeiro disco, o vocalista mostra suas habilidades sonoras ao imitar o som de uma moto com a sua boca, 'duelando' com Eddie Van Halen em Everybody Wants Some. O grupo segue o set-list –muito bem escolhido e estruturado, por sinal– com So This is Love?, Mean Streets e (Oh) Pretty Woman, levantando o público com um cover que todos conhecem. Ao final da música, é a vez de Alex Van Halen demonstrar suas habilidades, executando um solo de bateria simples e não muito longo, mas de ótimo gosto.


Unchained é a próxima, e David, como de costume, mais grita do que canta tal música, deixando grande parte das letras para pai e filho Van Halen, que fazem os backing vocals. E eles não decepcionam, demonstrando afinação e fidelidade às versões de estúdio. Se compararmos a performance do Van Halen do início da década de 1980 com a desta turnê, nota-se que os backing vocals melhoraram consideravelmente.

A balada I'll Wait tranquiliza um pouco o ambiente antes de And the Cradle Will Rock, talvez a música mais bem executada do show, pesada e muito fiel à versão original. É a vez de Hot for Teacher levantar o público, seguida por Little Dreamer, Little Guitars, Jamie's Crying e Ice Cream Man.

Com o show chegando à sua parte final, é preciso analisar a performance do 'moleque' Wolfgang Van Halen. Primeiro, é claro que Michael Anthony faz muita falta para o grupo. O baixista, sempre em segundo plano, ajudou a criar a imagem e o estilo do Van Halen durante os 30 anos de existência da banda. Com apenas 16 anos, esse é um fardo que Wolfgang precisa superar. Ele ainda é inseguro e tímido no palco, sem saber direito onde ficar. Mas não cometeu erros e sempre olhava o pai como exemplo, literalmente, indo atrás de Eddie durante a apresentação.

O guitarrista busca dar moral para o filho, 'duelando' e fazendo brincadeiras com Wolfgang. De qualquer maneira, é muito estranho ver um show do Van Halen sem Michael Anthony no palco. Depois de Ice Cream Man, a banda inicia um de seus maiores clássicos, Panama, que deixa todos em pé antes do solo de Eddie. O guitarrista se joga no chão (sem a agilidade de outros tempos, obviamente), executa trechos de músicas instrumentais (sendo Eruption a mais fácil de se reconhecer) e lança um sonoro "we're a fuckin' band now!" antes de Ain't Talkin' 'Bout Love, outro clássico que faz todos no Air Canada Centre cantarem.

Após o vigésimo abraço entre David e Eddie, a banda se despede antes de voltar para o bis. Logo depois, ouve-se a introdução 1984, que esquenta o ambiente para Jump, maior hit da banda em sua história. Confetes caem sob o público e David Lee Roth 'chama' a platéia para cantar com um gigante microfone inflável. O vocalista ainda demonstra suas habilidades no kung-fu, fazendo malabarismos com um bastão durante o solo de teclado de Jump.

Ao final da apresentação, enquanto todos saíam do Air Canada Centre com um sorriso 'colado' no rosto, vêm as perguntas. Até quando essa reunião vai durar? Será que os irmãos Van Halen, famosos pelo temperamento complicado, aguentarão o imprevísivel e inconseqüente David Lee Roth por muito tempo? Existem planos para um novo disco de estúdio? Teria Michael Anthony espaço nessa nova encarnação da banda?

Nada disso pode ser respondido ainda. Mas uma coisa é certa: a equação Eddie Van Halen + David Lee Roth é igual a Van Halen. Roth tem o espírito boêmio, irreverente e festeiro do grupo, e Eddie reconhece isso. Resta saber por quanto tempo a lua-de-mel vai durar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Depois de tantos dias e seis partes, chegamos ao final dessa jornada Rushenta em Toronto. Um dia após o show, no domingo (23/09) a Rushcon seria encerrada com algumas atividades bem interessantes.

A primeira delas seria, para mim, a mais esperada. Uma turnê pela SRO Anthem Records, nada mais nada menos do que a gravadora dos caras. Na mesma rua do Days Inn Hotel (onde acontecia a convenção), a Carlton Street, rumei com o grupo de pessoas de meia-idade em sua maioria para conhecer o local.

Antes disso, já havia lido que um fã tinha tentado aparecer lá na Anthem (cuja fachada -na foto ao lado - não possui nada de especial, nem mesmo o nome da empresa) e pedido para entrar e ver os discos de ouro do Rush. Não conseguiu, mas sugeria que, para quem quisesse tentar, que ligasse para a gravadora, se apresentasse e pedisse para fazer um tour por lá.

Percebi que não seria fácil, e a principal razão para eu ter pagado a taxa inteira da Rushcon (que custava CAD$ 65 e incluía todas as 'atrações') era justamente essa tour pela SRO Anthem. E ela não decepcionou. Tirei muitas fotos daquela quantidade imensa de discos, cds, cassetes, vídeos e dvds de ouro e platina.


Duas coisas me chamaram mais a atenção. Primeiro, umas fotos presas em um mural com fotos da banda em seus primórdios, anúncios de shows do Rush em 1973 e 74, algumas delas até da época que a banda tinha um quarto integrante (o segundo guitarrista Mitch Bossi, salvo engano).
A segunda é a pintura original da capa do disco Power Windows, de 1985, feita pelo eterno designer das capas do grupo, Hugh Syme, e que pertence a Neil Peart. Tirei uma foto com a pintura e também da assinatura de Syme, no canto posterior direito da figura.

OBS: Ontem eu estava lendo uma biografia do Kiss, chamada Por Trás da Máscara, e descobri que o Hugh Syme fez o design da capa do Revenge, disco de 1992 que trouxe o quarteto mais capitalista do Rock 'n' Roll de volta às suas origens. Gosto muito desse álbum, e também de sua capa.

Voltando ao hotel com o resto do grupo, fiquei lá e conferi um pedaço do leilão beneficente que começou a rolar. A galera gastou muita grana (lembro de um simples poster autografado do Neil Peart sair por uns CAD$ 300). Logicamente que eu não participei, pois não tinha cacife para isso. Além do mais, se fosse para gastar aquela quantidade de dinheiro com a banda, que fosse para comprar um livro que contém todos os tourbooks da banda até 2004, e que estava à venda na convenção em uma estante da Anthem. Não trouxe por causa do preço e também por causa do peso na mala. De qualquer maneira, foi divertido ver aquela galera se digladiar para levar os itens.

A última atração da Rushcon era no domingo à noite, em que a galera se reuniria no pub que o Alex Lifeson é sócio, chamado The Orbit Room. Confesso que o lugar é simples, com uma decoração mais ou menos. Mas tinha uma bandinha tocando um som diferente (nada a ver com o som do Rush, mas bem legal) e uma galera bem eclética. Não estava lotado, mas com uma galera até.

Lá, conheci melhor o pessoal da Rushcon, conversei também com quem eu já havia sido apresentado e fiz um grande amigo, o Regan, que me deu uma grande força enquanto eu estive em Toronto. Além disso, também me deu um cd do Max Webster (banda canadense 'irmã' do Rush, que abriu shows deles na época do Moving Pictures - e cujo guitarrista, Pye Dubois, é co-autor de Tom Sawyer) que tem a música Battle Scar, gravada com a participação dos três integrantes do Rush.

No Orbit Room, conheci um amigo do Regan, o japonês Seiji Harada, que dois meses depois me forneceria gentilmente suas fotos do show para que eu mandasse para a Rock Brigade publicar ao lado do meu review (considerando que as minhas imagens não eram nem um pouco aproveitáveis, por causa da já mencionada lonjura entre eu e o palco).

Mesmo que eles não entendam nada desse texto em português (o Seiji não entendia nem inglês direito), um grande abraço aos dois.


Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

O review já está publicado em alguns posts abaixo. Agora, falarei um pouco sobre como foi assistir ao trio canadense em sua hometown, do ponto de vista pessoal.

Estava eu no Days Inn Hotel, na Carlton Street, para pegar o ônibus com o pessoal e rumar ao Air Canada Centre. Era um ônibus escolar, cuja foto está logo abaixo. Uma mendiga (sim, existem muitos mendigos em Toronto - e a vasta maioria deles são brancos, o que me chamou a atenção, já que a população negra e latina na cidade é muito grande) fez graça comigo: "cool, a schoolbus!", porque eu estava me impressionando com um simples ônibus escolar. Aqui, os veículos escolares não são caracterizados assim, expliquei bufando.



No caminho, sentei do lado de um homem de uns 45 anos, norte-americano de um estado que eu não lembro, mas que era daqueles que tinha visto o Rush pela primeira vez na época do A Farewell to Kings (1977). Ele ainda soltou: "eu não sei quantos shows eu assisti, mas acho que esse deve ser o 40 e poucos; porém, esse é o primeiro deles que eu vou ver em Toronto, na casa da banda". O sentimento era parecido com o meu; a diferença é que seria apenas meu segundo show.

Chegando ao local, coloquei uma bandeira brasileira (que era do Lloyd, meu homestay canadense) enrolada nas costas. Nunca fui desse tipo de 'patriota', de querer comemorar o fato de ser brasileiro. Muitos faziam isso na escola onde estudei em Toronto: iam todo dia com a camisa do Brasil, tocavam samba alto, falavam português o tempo inteiro... demonstrando um orgulho e patriotismo forçado. A minha saudade de casa eu guardei para mim, já que não estava no Canadá para divulgar meu país.

De qualquer maneira, como eu disse, quis enrolar a bandeira nas costas. Como o Rush (e o Rock 'n' Roll em geral) é importante demais para mim, esse foi o jeito que eu encontrei de demonstrar que o Brasil estava também representado naquele evento. Era apenas um símbolo para mim. Afinal, o Brasil é um dos países mais Rock 'n' Roll do mundo.

Quando desci do ônibus, o Sam Dunn - aquele do documentário sobre os fãs de metal e que já tinha me entrevistado para o documentário sobre os fãs do Rush - estava fazendo umas imagens para esse mesmo filme, que deve sair em 2009. Naquele momento, um cara que estava na Rushcon ficou fascinado com o fato de eu ter vindo do Brasil e me deu um cd com o áudio do show da banda em Tampa Bay, em junho de 2007. Quando eu estava agradecendo a boa e incógnita alma, Sam pediu para o câmera dar um close na bandeira - e em mim. Confesso que bateu uma vergonha. Mas me comuniquei com a câmera, já que não havia muito o que fazer.

Rumei para a fila, que era grande, porém organizada. Entrei com uma máquina fotográfica escondida (o que foi extremamente desnecessário, já que a revista foi zero), dei umas voltas para ver o merchan da banda e as barracas de hot-dog. Nossa senhora, quanta besteira que vendia naquele ginásio. Pipocas e refrigerantes gigantes compunham o cenário do público.

Quando cheguei no meu lugar, já comecei a me arrepender de não ter comprado o ingresso mais caro, na pista. Era longe demais do palco, mas pelo menos eu conseguia ver o telão. Não foi o que aconteceu três semanas depois, quando fui assistir ao Van Halen no mesmo local. Mas essa história fica mais para frente. Por ora, fica a imagem da distância entre Tuvuca e seus ídolos Lee, Lifeson e Peart.



Fui um dos primeiros a entrar, então é lógico que quando eu sentei no meu devido lugar marcado, o ACC ainda estava vazio. Faltando meia hora, lotou tudo. Fiquei surpreso, porque achei que sobraria lugar. Mas o público de aproximadamente 30 mil pessoas era praticamente sold-out. Tentei pregar a bandeira na grade em frente à arquibancada. Não me deixaram, como já imaginei que aconteceria. "You can't do this kind of stuff here", disse a moça para mim, em um misto de educação e surpresa pela minha atitude.

Quanto a esse negócio de lugar marcado, confesso que não tenho opinião formada sobre tal assunto. Nossa cultura é muito diferente. Um dia, pensarei melhor e tentarei chegar a alguma conclusão. Vi da arquibancada aquela pista com o pessoal todo em pé, mas parado, organizadinho, respeitando o lugar do próximo. É realmente muito estranho.

O show começou com Limelight, todo mundo levantou, cumprimentou a banda e sentou calmamente para ver os caras. Foi muito engraçado. Mas a galera gritou bastante quando Geddy disse que Toronto era como um "big club" para o Rush. "That`s our hometown", ele completou. A foto abaixo, que mostra um pouquinho do público, foi tirada durante a execução de Dreamline.


Quanto às musicas em si, deixo o review supramencionado e suprapublicado para quem quiser maiores detalhes. Só digo que eu me policiei para não ler o set-list antes do show e não estragar as surpresas. Lembrava que eles estavam ensaiando Entre Nous para a tour, mas fiquei emocionado quando eles tocaram essa pérola do Permanent Waves, que começou a ser executada ao vivo justamente na turnê do Snakes And Arrows. Antes disso, apenas na gravação do PW, em 1979.

As que mais me surpreenderam foram Circumstances, A Passage to Bangkoc (adoro esse som) e Witch Hunt. Em The Spirit of Radio, admito que fiquei muito emocionado. Gosto de acreditar na liberdade da música, como diz a letra. Para mim, The Spirit of Radio (e não "The Spirit of the Radio", como alguns profanizam) é a melhor faixa que os caras já compuseram. Mescla a virtualidade com o pop, o rock com o reggae, o complicado com o pegajoso. A energia que sua letra passa é magistral, na melhor das canções que falam sobre música. Um ótimo e esquecido tema, na minha opinião.

No intervalo, fui dar uma volta e encontrei um outro brasileiro, de Natal, que estava em Toronto estudando e trabalhando. Conversei com o cara, que não era muito fã da banda mas estava adorando o show. Era realmente impossível não se impressionar com eles. Eu virei fanático pelos três justamente depois do show de SP, em 2002.

Depois desse concerto, o fanatismo só aumentou. E só tende a aumentar. Se os caras vierem mesmo neste ano para cá, estarei nas primeiras fileiras. Podem apostar.

Assim, fica o registro desta histórica data de 22 de setembro de 2007. Na minha memória, um dos maiores shows de todos os tempos.

Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Após dormir morrendo de ansiedade para ver o Rush de verdade pela segunda vez, acordei no sábado e corri para o hotel onde o encontro aconteceria (e onde a maioria dos fãs dos Estados Unidos e outros lugares do Canadá estavam hospedados). Era um hotel da rede Days Inn e ficava na Carlton Street, mesma rua da sede da gravadora do Rush (Anthem SRO) e do ginásio Maple Leaf Gardens (no qual o trio gravou o vídeo Grace Under Pressure Live).

Cheguei lá, ainda não tinha começado nada. Fiquei olhando um pouco o merch da banda, comprei o tourbook da Snakes and Arrows Tour (e quase levei um livraço com todos os tourbooks da banda até a turnê de 30 anos, que custava uns 150 dólares canadenses). Também levei a linda camiseta vermelha da tour e ganhei um monte de tranqueira que sobrou como souvenir das Rushcons anteriores, desde uma camiseta até um apoiador de sabonete com referências à banda.

Paguei minha entrada para a Rushcon e procurei o Sam Dunn, que estava entrevistando um pessoal do Japão. Depois, me chamou para a gente conversar. Eu, que acabei de produzir ao lado de três colegas um documentário sobre o Tom Zé (que em breve estará no YouTube), como trabalho de conclusão de jornalismo, gostei de passar de entrevistador para entrevistado. Entrevistador em português para entrevistado em inglês.

O Sam fez algumas perguntas genéricas ("há quanto tempo você gosta da banda?", "por que eles são tão especiais", etc) e outras mais legais, tentando entender a relação de paixão entre um trio de músicos canadenses, de certa forma frios e discretos, e os brasileiros, que de frieza não têm nada. Expressei a minha opinião, de que nós admiramos os caras justamente pela dedicação, determinação e sensibilidade em cada trabalho que lançam. Trabalhos esses que não podem sair de ano em ano; as coisas podem demorar (como Vapor Trails, que levou mais de um ano para ficar pronto, mas saiu ótimo e contemporâneo, do jeito que manda o perfeccionismo da banda).

Bom, já disse que assisti ao outro documentário do Sam Dunn (Metal: A Headbanger`s Journey), e acredito que esse sobre os fãs do Rush, que deve ficar pronto em 2009, vai ser maravilhoso. O cara é canadense também, cresceu ouvindo Rock 'n' Roll e heavy metal e entende do assunto. Ao mesmo tempo, mantém um certo distanciamento da 'tietagem' que existe no meio, o que sem dúvida ajuda em muito o trabalho de um bom jornalista.


Depois da entrevista, fui até o saguão onde estavam expostas algumas peças legais que seriam leiloadas no dia seguinte e tirei algumas fotos. Depois, começou a rolar competição do jogo Guitar Hero, onde todo mundo tinha que se matar para não errar nenhuma nota de YYZ. Apesar de ficar de fora (os únicos games que eu gosto são do finado SuperNes), me diverti assistindo aquele povo levando o jogo a sério, como se Lee, Lifeson e Peart estivessem presentes para ver a performance de cada um. Lembro que o cara que ganhou o concurso do 'Air Drums', na noite anterior, também jogou o Guitar Hero.


Depois disso, a organização montou o The Game of Snakes and Arrows, onde três participantes tinham que acertar perguntas sobre a banda. Cada resposta certa ajudava a desvendar uma imagem ao fundo da tela onde as questões eram lidas. No final, essa imagem era um pé-de-coelho e estava relacionada ao tourbook do Presto. Dos três concorrentes, sei que o vencedor ganhou um ingresso foda para o show que aconteceria em algumas horas, em uma cadeira central na terceira fileira, salvo engano.

O público lá era o mesmo do show do Limelight na sexta-feira, mas rolava um pessoal ainda mais velho que não teve pique de ver a banda cover. Todo mundo estava ansioso para chegar no Air Canada Centre; Lee, Lifeson e Peart entrariam no palco às 19h. Rolava um busão (daqueles escolares, amarelos) até o ACC, sem custo para aqueles que participavam da Rushcon.

Fiquei numa lanhouse um tempinho, comi num Subway, comprei uma caneta para anotar o set-list e algumas observações que me ajudariam a escrever o review e rumei para o ônibus com o resto do pessoal.

O resto, que inclui o show em si, eu conto amanhã.

Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Vamos em frente com o monte de história sobre os shows do Rush em Toronto, no último mês de setembro.

Após descobrir a existência da Rushcon, que reuniria fãs da banda de todos os lugares da América do Norte, um ou outro europeu, japonês ou brasileiro (eu, no caso), rumei para lá. Na programação, a primeira atração seria um show da banda Limelight na sexta-feira (21 de setembro), no Opera House (um pub/muquifo ao lado sudeste de Toronto).

Cheguei lá quando já tinha começado, e uma moça da organização veio me perguntar de onde eu era. Quando contei sobre minha procedência, ela disse "acho que o Sam irá querer falar com você". Sam era Sam Dunn, diretor do documentário Metal: A Headbanger`s Journey, que até saiu no Brasil pela Europa Filmes, há algum tempo.

O Sam, com uma cara típica de metaleiro canadense em seus early 3o's, foi extremamente simpático e contou que tinha vindo para o Brasil por causa desse documentário sobre os headbangers (que eu assisti já e é muito divertido, além de informativo; a capa está aqui ao lado). Ele explicou que seu novo projeto era um documentário sobre os fãs do Rush, que provavelmente estará pronto em 2009. Perguntou se poderia me entrevistar, no dia seguinte, e eu disse "claro!".

Fui então, ver a banda, que ainda não tinha começado. Estava rolando um concurso de Air Drums, com um monte de marmanjão fingindo tocar YYZ no palco. Esses tais concursos de Air Guitars e Air Drums nunca foram muito populares por aqui (ainda bem), mas faz parte da cultura metaleira da América do Norte. Fui tomar uma cerveja canadense, forte e de gosto razoável, para esperar o Limelight subir ao palco.

Como um forasteiro, fiquei checando a galera. A grande maioria do pessoal tinha entre 35 e 45 anos, fãs há bastante tempo. Alguns tinham entre 20 e 30, mas eram mais escassos. O que se via mesmo era muitos "casais-Rush", daqueles que deixam a família inteira fanática pela banda. Fiquei lá de zoio até o show começar.

O Limelight entrou e mostrou uma formação bem sólida. Os caras eram de Nova York, e o vocalista, que parecia mais o Ripper Owens, ex-Judas, trajava uma camisa do NY Rangers, time de hóquei e grande rival do Toronto Maple Leafs, heróis locais mas que nunca ganham a NHL. O Air Canada Centre, ginásio do Maple Leafs, seria palco do show do Rush no dia seguinte.

Voltando ao Limelight, os caras fizeram um ótimo show, com destaque maior para o baixista/tecladista, que agitava bastante e tocava bem pesado. O legal foi que eles desenterraram algumas pérolas dos primeiros discos, como Beneath, Between and Behind, In the End e até mesmo Under the Shadow, que faz parte da longa The Necromancer. Outra grande idéia foi tocar o Moving Pictures inteiro e evitar as músicas que estão no set-list atual do Rush.

Uma constatação: nunca vi uma banda tributo do Rush só com três integrantes, e isso não foi exceção com o Limelight, que conta com quatro membros. Acho que isso mostra como os caras são únicos em seus instrumentos, sem esquecer da parafernália de samplers e pedais utilizados. Outra constatação foi: o melhor de assistir a uma banda cover lá de cima é de que o inglês é a língua nativa dos caras. É uma vantagem que não se pode ignorar sobre as bandas brasileiras, que sofrem também com as palavras complicadas das letras de Neil Peart. Mas alguns se dedicam bastante e essa característica acaba ficando quase que imperceptível.

De resto, tudo igual sempre: um monte de música fera, galera gritando empolgada, intervalo, mais um monte de música fera, uns três bis e depois pegar o bonde e o metrô para ir para casa. Conversei com poucas pessoas lá, mas deixei o contato marcado com o Sam Dunn para dar a entrevista no sábado, algumas horas antes do show, no hotel onde rolaria a Rushcon.

Para finalizar o post, duas fotos: a primeira é do palco, com a banda e algumas das cerca de 60 pessoas que foram ver o Limelight.



A segunda é uma imagem que eu peguei no site da banda, em que eu apareço com uma camiseta preta, o peito e a barriga pra frente e uma cerveja na mão, vendo os caras se apresentarem. O crédito da foto é de uma tal de Kristy Williams.

Agora sim, até amanhà e um Feliz Natal para toda sua família.


Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Voltando agora à normalidade, começarei a contar um pouco da jornada para ver o Rush em Toronto. Primeiro, cheguei na maior cidade canadense cerca de 10 dias antes da apresentação, que seria no dia 22 de setembro de 2007, um sábado. A quarta-feira (19) estava reservada para o primeiro show.

Neste dia, eu estava morrendo de vontade de comprar um ingresso e assistir também àquela apresentação. Me segurei porque não podia ficar gastando tanta grana, mas resolvi visitar a CN Tower, uma das mais altas estruturas do mundo e talvez o principal cartão-postal da metrópole canadense.

A caminho, resolvi parar em um pub, tomar uma cerveja e comer um lanche. Eram mais ou menos 18h, e os caras entrariam no palco em duas horas. Já bem perto da CN Tower, parei no boteco e pedi um sanduíche. Na mesa do lado, vi que tinham três caras com camisetas da banda e falando sobre o que estavam prestes à assistir. Um deles me perguntou se eu tinha um isqueiro, respondi que não mas soltei "e vocês, estão indo ver o Rush?".

Após o "sim", me devolveram a questão e eu expliquei que só veria Lee, Lifeson e Peart no sábado. Ficaram fascinados quando eu contei que era brasileiro e tinha ido em um show da turnê do Vapor Trails em 2002. Não aquele do Rush in Rio, mas o de São Paulo, que choveu horrores e se tornou o maior público da banda em toda sua história como headliners (cerca de 60 mil pessoas vieram ao Morumbi).

Mostrei algumas revistas que eu tinha comprado da banda (uma Kerrang! de 1984, da época do lançamento do Grace Under Pressure). Os caras acharam o máximo todo aquele fanatismo e tentavam entender o porquê de um brasileiro se identificar tanto com o trio. Expliquei que bom gosto e admiração pelos que buscam sempre a perfeição existem no mundo inteiro.

Também houve aquela indagação típica dos canadenses (como eu constataria depois), do tipo "nossa, mas por que vocês fazem tanto barulho? Cantam até YYZ, que é instrumental!". Eles perguntavam até com uma certa inveja e se justificavam: "nós canadenses somos mais discretos, não vibramos tanto como vocês". Recordei-os de que, em 2002, estávamos vendo o Rush pela primeira vez, depois de tanto tempo esperando. A empolgação era realmente única, o que fica bem claro no DVD do Rush in Rio. Mas, no final das contas, brasileiro gosta mesmo é de fazer festa. E ser parte do show. Seja no esporte ou no Rock `n` Roll, o que importa é cantar e gritar o mais alto possível.

Eram dois caras mais velhos, na faixa dos 40 anos, e o filho de um deles, de 13, que assistiria ao seu primeiro show do grupo e estava ansioso. Lembro que eles me disseram que tinham visto o Rush pela primeira vez na época do Signals (1982) e iriam ao seu vigésimo e tanto show, pois já tinham perdido a conta. Me despedi de todo mundo e fui lá para a CN Tower, morrendo de vontade de rumar ao Air Canada Centre e gastar mais uns 90 dólares.

Acabei indo mesmo para a CN Tower, pertinho do ACC, tirei umas fotos lá de cima (uma delas postada aqui, que mostra o local do show a uma altura de 346 metros). Saindo de lá, passei no ACC e vi um folheto divulgando a Rushcon 7, encontro de fãs que começaria na sexta-feira com um show de uma banda cover do Rush em um muquifo lá de Toronto.

E foi lá que a jornada continuou.




Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Tuvucanadá - Rush, Parte 1 (review)

Logo na minha segunda semana em Toronto, lá estava eu para ver a banda que eu acho mais talentosa, criativa e coesa (resumindo: minha favorita) banda do Rock 'n' Roll: o Rush.

Quando já tinha decidido estudar um tempo em Toronto, mas antes de fechar a viagem, descobri que Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart tocariam em sua cidade-natal nos dias 19 e 22 de setembro para a turnê de divulgação de seu novo disco, Snakes and Arrows. Pensei: vou nessa.

Seria meu segundo show do Rush. O primeiro foi em São Paulo, na turnê do Vapor Trails em 22 de setembro de 2002. Aliás, foi no estádio do Morumbi, naquela noite chuvosa, que minha admiração pelo trio torontoniano virou paixão.

Um dia explico porque o Rush é a minha banda preferida. Mas voltando à história, comprei o ingresso pela internet para o show do dia 22 e tentei convencer alguma revista brasileira a publicar um texto meu sobre o evento. A Rock Brigade aceitou (está na edição de novembro, ao lado do meu review sobre a reunião do Van Halen com David Lee Roth, cuja história eu conto mais para frente).

No dia 19, estava perto do Air Canada Centre, onde seria a apresentação, e passei pela frente do local. Lá, descobri que na sexta-feira, um dia antes do show que eu iria, o fã-clube da banda estava divulgando o Rushcon 7, uma reunião de aficionados do Rush que começava no sábado e terminava no domingo.

Contarei em detalhes como foi esse fim-de-semana rushento de festas, leilões, entrevista para documentário e muito Rock 'n' Roll, nos próximos dias. Por enquanto, fiquem com o review que eu escrevi sobre o show e umas fotos tiradas pelo japonês Seiji Harada (que eu conheci na Rushcon e me cedeu gentilmente as figuras, que também foram para a revista). Eu estava em um lugar péssimo, por isso as minhas fotos não foram muito aproveitáveis.


Rush – Air Canada Centre, Toronto – 22/09/07

Por Marcelo Freire

Depois de assistir à turnê do Rush no Brasil, em 2002, que rendeu o histórico DVD “Rush in Rio”, presenciar o trio canadense em sua cidade natal para a promoção do disco “Snakes and Arrows” é uma experiência certamente diferente. O Air Canada Centre, palco de jogos de hóquei e da NBA, estava praticamente lotado para ver o segundo show do Rush em Toronto nessa turnê (a primeira apresentação foi na quarta-feira, 19), com um set-list que prometia muitas surpresas.


Um vídeo descontraído, contando com brincadeiras entre os integrantes da banda, esquentou o ambiente até que as primeiras notas da clássica Limelight fossem ouvidas no ginásio. O trio mostrava a coesão de sempre logo na música de abertura, enquanto que o público canadense, como já era esperado, assistiam a Lee, Lifeson e Peart com tranqüilidade, sem os gritos e a histeria dos shows em terras brasileiras. Mesmo assim, os mais de 30 mil pagantes não tiravam os olhos dos três instrumentistas em nenhum momento.

As duas músicas seguintes confirmavam a promessa da banda em executar canções que estavam fora do set-list das turnês há bastante tempo. Digital Man e Entre Nous, ambas do início da década de 1980, surpreenderam todos os presentes, principalmente aqueles que acompanham as apresentações do Rush desde essa época.

Geddy Lee saúda seus contêrraneos antes da pérola Mission, outra que estava ‘sumida’ dos shows. Após o clássico Freewill, Lee, Lifeson e Peart iniciam a execução de músicas mais recentes, como A Secret Touch, de “Vapor Trails”(2002) e duas do novo disco, a instrumental The Main Monkey Business e The Larger Bowl, cujo vídeo exibido no telão fez diversas referências aos combates e às guerras em diversas partes do mundo.

Circumstances, de 1978, foi talvez a maior de todas as surpresas, pois é da época mais progressiva do Rush, durante o disco “Hemispheres”. E é curioso ver como Geddy Lee se comporta durante a execução da canção, que tem notas altas demais para o vocalista nos dias de hoje. Mesmo assim, ele não arrega, sabendo de suas limitações nas notas mais altas e se poupando nas melodias mais tranqüilas. Between the Wheels e Dreamline encerram a primeira parte do show, antes dos tradicionais 20 minutos de descanso para Lee, Lifeson e Peart.

No aspecto instrumental, é praticamente desnecessário mencionar a habilidade de cada um. A precisão de Neil, a versatilidade de Geddy e a criatividade de Alex, aliadas à capacidade e ao conhecimento técnico de cada um, é sempre um show à parte. Alguns overdubs de teclado e voz são necessários, mas o resto fica a cargo pelos três no palco. Quanto à interação com a platéia, Alex é o que mais se movimenta, já que Geddy fica com o espaço mais limitado como vocalista, baixista e tecladista, sem deixar de se comunicar com a platéia, no entanto. Mesmo demonstrando 100% de concentração durante todo o tempo, Neil Peart também está mais descontraído, principalmente em relação à epoca de “Vapor Trails”, quando ainda se recuperava de uma grande tragédia pessoal após a morte da esposa e da filha em um espaço de apenas 10 meses, no final da década de 1990.



Em meio a explosões, o Rush volta ao palco para a segunda metade do show detonando Far Cry, canção que abre “Snakes and Arrows” e que é muito bem recebida pela platéia, contendo todos os requisitos para se tornar um clássico da banda em sua fase mais recente, principalmente por causa de seu refrão contagiante. Workin’ Them Angels, Armor and Sword, Spindrift e The Way the Wind Blows vêm em seguida, dando uma certa esfriada no público. Mesmo assim, todas funcionam melhor ao vivo do que em estúdio, como normalmente acontece com as canções do Rush.

A clássica Subdivisions, cujo videoclipe gravado em 1982 exibe diversas imagens de Toronto, volta a levantar o público, registrado pelo próprio Geddy Lee, que pega uma câmera e filma a platéia ao final da música. Depois de Natural Science, a música mais longa do set-list, vem outro ‘resgate’, dessa vez de “Moving Pictures”(1981): Witch Hunt, muito bem ensaiada e deixando parte do público emocionado com uma das mais belas letras já escritas por Neil Peart. As imagens no telão, produzidas pela banda, também se relacionam com a canção.

“Snakes and Arrows” volta a ter espaco no set, desta vez com a instrumental Malignant Narcissism, composta durante uma jam entre Lee e Peart e marcada por uma excelente e repetitiva frase de baixo. Logo em seguida, Neil toma a frente e inicia seu concerto particular. Não se contenta apenas em demonstrar a habilidade que o transformou em um dos maiores bateristas de todos os tempos, mas também inova seu solo a cada turnê, trazendo novos elementos e reinventando passagens já conhecidas em outros discos ao vivo da banda. Como aconteceu nas duas últimas turnês, Neil encerra sua apresentação improvisando ao som de um tema jazz, como baterista de uma ‘big band’ dos anos 50.

Ao contrário da versao acústica de Resist, tocada nos últimos anos como ‘descanso’ para Peart após o solo de bateria, Alex Lifeson volta ao palco para apresentar seu belo tema de violão, chamado Hope, também presente em “Snakes and Arrows”. Distant Early Warning traz a banda de volta e abre espaco para The Spirit of Radio, sempre levantando a platéia com a mistura de elementos pop/reggae com a complexidade rítmica da canção, um dos maiores hits da história do Rush, ainda mais em sua terra natal.

Outro vídeo muito engraçado, desta vez com os personagens do desenho South Park tocando o início de Tom Sawyer, aparece no telão. Após ‘falharem’ na primeira tentativa, as ‘crianças’ do desenho abrem nova contagem e desta vez é a banda que executa a música, sempre com maestria. Alguns deixam o Air Canada Centre e perdem o bis, que começa, surpreendentemente, com One Little Victory e A Passage to Bangkoc. Esta é praticamente uma viagem no tempo, já que a primeira canção abre “Vapor Trails” e a segunda é a mais antiga do show, tendo sido gravada em 1976, adaptada ao estilo da banda nos dias atuais.

A terceira instrumental da noite encerra o espetáculo: YYZ, demonstrando o quanto Lee, Lifeson e Peart, ainda têm para entregar ao rock`n`roll após 33 anos juntos. O grupo ainda deixa sua mensagem ao tocar muitas músicas novas, além das antigas que ‘desapareceram’ dos shows nos últimos 20 anos. Os fãs que lotaram o Air Canada Centre nas duas noites saíram deslumbrados com mais essa passagem do Rush por sua cidade natal. Falta saber se os boatos ouvidos aqui em Toronto, de que o trio planeja uma passagem pela América do Sul no ano que vem, com uma parada obrigatória no Brasil, se confirmem. Os brasileiros não se decepcionarão.


Veja aqui as outras cinco partes da jornada:

Tuvucanadá - Rush, Parte Final

Tuvucanadá - Rush, Parte 5 (o show)

Tuvucanadá - Rush, Parte 4

Tuvucanadá - Rush, Parte 3

Tuvucanadá - Rush, Parte 2

Tuvucanadá - Introdução

Para começar a série de posts canadenses, aqui vai uma breve introdução sobre o que eu fui fazer nesse país frio, grande e com uma gigante área praticamente desabitada.

Depois de terminar o freela para a Folha, durante o Pan carioca, e já formado, resolvi encarar um desafio novo. Dinheiro guardado, planejei a viagem. Fui estudar inglês, por seis semanas, na International Language Schools of Canada (ILSC) de Toronto. Deixei duas semanas para conhecer o estado de Québec, ao norte de Ontario, também conhecido como French Canada.

Desembarquei em Toronto, após sair de São Paulo e trocar de vôo em Miami, no dia 12 de setembro (sim, saí daqui no dia 11, a data mais segura do ano para viajar de avião). Conheci uma brasileira cujo amigo canadense que também fala português e trabalhou para a Veja aqui no Brasil (ufa!) me deu carona até minha homestay, onde ficaria pelas seis semanas em Toronto.

Chegando lá, conheci a pessoa que me daria comida e quarto durante esse tempo. Lloyd, um senhor de 70 anos formado em filosofia, artes cênicas, ex-diretor e ainda ator de teatro, me recebeu com extrema simpatia. Pareceu até brasileiro. No meu quarto, ele estendeu uma bandeira do país para que eu me sentisse em casa. Nunca me liguei em patriotismos nem nada, mas aquela bandeira do Brasil na parede me trouxe um inesperado conforto.

De um senhor de 70 anos, Lloyd não tinha nada. Vivido (foi professor em Nova York nos turbulentos anos 1960), ele tinha história demais para contar, sobre atores, diretores, podres de Hollywood e até sociologia. Resmungava bastante, o que acabou sendo um ponto semelhante entre ele e eu.

Ao Lloyd dedico este post introdutório.